Acho que é preciso morar numa caverna para ainda não ter ouvido falar n’Os Azeitonas, uma das novas coqueluches do panorama musical português. Mesmo que não saibam quem eram, ficam já a saber que são os responsáveis por “quem és tú, miúúúúda”

Apesar de ser apreciador de boa música, ainda mais quando é de artistas portugueses e cantada em português, poucas coisas me fariam falar aqui de uma banda ou de um artista – excepto atitudes verdadeiramente excepcionais; como esta d’Os Azeitonas (os sublinhados são meus):

O nosso novo álbum não risca, não ganha pó, não se perde, não é roubado, não é um roubo, não fica por devolver, não ocupa espaço na estante, não ocupa espaço no porta-luvas, não vem numa caixa que parte, não exige que se deixe crescer a unha do dedo mindinho para abrir o plástico que o envolve, não é composto por uma base plástica de policarbonato e por uma camada refrexiva feita de liga metálica de alumínio, prata ou ouro, não demora mais do que 450 anos para se decompor nem alimenta a fome voraz de nenhuma multinacional pouco escrupulosa. E é como os bonés dos partidos durante os comícios: cabe na categoria das coisas que são bonitas, úteis, encerram em si toda uma ideologia política e sao GRÁTIS!

(retirado do site oficial d’Os Azeitonas)

Apesar do tom semi-cómico do comunicado, acertam em cheio – como, aliás, seria a sua intenção.

Todos sabemos que os músicos, à excepção dos verdadeiramente de topo, não retiram grandes lucros das vendas de CD’s. A fatia de leão dessas vendas vai para as editoras e produtoras. Só os artistas de topo têm o poder negocial para subir a sua percentagem dessas vendas.

Os músicos comuns, se querem mesmo viver da música, sobrevivem dos concertos – e mal. Para se dar concertos, é preciso que alguém os contrate. Para alguém os contratar, é preciso conhecer as músicas e terem uma base de apreciadores de tamanho apreciável.

De que forma se dão as conhecer as músicas? As editoras e produtoras, ao longo dos anos, convenceram os músicos que apenas com muito esforço de marketing e jogando com as playlists das rádios o conseguiriam. O que está a correr mal às editoras hoje em dia, é que a maior parte dos músicos já tem cérebro. Só falta a sorte (para além do talento, como é óbvio)…

E Os Azeitonas tiveram-na: tiveram a sorte incrível de serem convidados pelo Rui Veloso, who else, para gravar pela sua editora e participar nalguns concertos com ele e com o inestimável José Cid. E, felizmente, a sorte continua até hoje. Vejam a biografia da banda no blog deles.

Mas voltando à questão, o lançamento do último álbum em formato download livre é um nada subtil passem bem a todas as editoras do mundo. Nem sequer é inédito, a moda iniciou-se de forma tímida com In Rainbows dos Radiohead (podia-se escolher quanto se queria pagar pelas músicas) e seguiram-se os Nine Inch Nails, com os álbuns Ghosts I-IV e The Slip, e outros artistas seguiram a tendência.

Como defensor acérrimo da livre circulação da creatividade, não podia deixar em branco esta iniciativa d’Os Azeitonas. E é completamente diferente de, por exemplo, Ana Free – esta começou livre, via YouTube e depois virou comercial. Isto é ser-se uma vendida. Os Azeitonas começaram comerciais e foram-se tornando cada vez mais livres.

E este trabalho, Salão América, não é o primeiro com características sui generis: já o trabalho anterior, Rádio Alegria (que continha o Quem és tu, miúda) tinha uma característica algo insólita:

RADIO ALEGRIA, UMA RÁDIO QUE É UM LIVRO QUE É UM CD

Em Portugal, um CD é considerado um “artigo de luxo” e, segundo o Código do IVA, é sujeito a uma taxa de 21%, a ser suportada pelo consumidor final. Já um livro, por sua vez, encaixa na categoria de “artigo de cultura”(apenas 5%). O nosso governo, e bem, promove a cultura a artigo de primeira necessidade, metendo no saco do pão, do leite e do “Eu, Carolina”, todos aqueles produtos sem os quais a própria subsistência do povo fica comprometida. Já os produtos de luxo, como é o caso da alta costura, dos relógios de ouro e da música, só mesmo para quem se pode dar a luxos. Não é que os Azeitonas considerem o seu novíssimo “Rádio Alegria” o pão para a boca do povo. Mas quem quiser abanar o pé ao som destas novas músicas, não terá que pagar um imposto tão pesado. É que a “Rádio Alegria” chega-nos no próximo dia 2 de Novembro em formato “livro com oferta de CD”. Em certos casos, a lei perde-se no meio de tanto papel, ficando por definir com clareza a fronteira entre o que é “luxo” e o que é “primeira necessidade”. Por exemplo, um rolo de papel higiénico é tributado a 21%. Qualquer livro é fiscalmente mais leve. Num momento de aperto (fiscal, obviamente) é melhor optar por este último. Nestas alturas, mantenha sempre um exemplar do “Código do IVA” sempre à mão. É que convém nunca descurar a limpeza (fiscal).

(retirado do blog d’Os Azeitonas)

No link acima podem efectuar o download de (quase) todas as músicas d’Os Azeitonas. Vão lá, que vale bem a pena. E, se puderem, vão vê-los ao vivo. E paguem o concerto, pelo preço pedido, sem refilar, que eles merecem.

Antes de terminar, umas palavras sobre o site oficial, de promoção ao Salão América. Devo dizer que sou pouco fã de sites 100% flash. Demoram a carregar, a funcionalidade é pouco standard, e, normalmente, não funcionam com o histórico do browser (é possível por a funcionar, chama-se deep linking, mas isso fica para outro dia).

Posto isto, o site até que é engraçado, tem imensas coisas para explorar dentro do dito salão, não demora tanto tempo a carregar como se suspeita à primeira vista. Vale a visita.

Finalmente, peguem lá o videoclip de Café Hollywood (que eu considero absolutamente spaghetti, mas duma forma fantástica, assim ao modo de Kill Bill):

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