Hoje, o Governo (e o maior partido da oposição, para referência futura), se calhar a propósito do campeonato do Benfica ou da visita papal, resolveu brindar-nos com um (novo) aumento do IVA. Ainda durante a madrugada, já não faltavam meios de comunicação com contas e mais contas, incluindo o maior índice da nossa economia, o preço da bica.
Para saber o que, efectivamente, nos está a ser pedido, peguei num (na realidade, dois) talão de supermercado normalíssimo e fiz umas contas. Para começar, vamos partir do pressuposto que isto é uma compra padrão – que é – e que a faço duas vezes por mês. Na realidade, e só para que saibam, faço efectivamente duas vezes por mês, e, embora os produtos constantes duma e doutra sejam diferentes, a matriz de produtos nas várias categorias de IVA será sensivelmente a mesma. Infelizmente, o outro talão já seguiu ao encontro do seu destino final…
O primeiro passo é separar os produtos pelas categorias de IVA, o que vem a dar 45,59€ a 5%, 23,12€ a 12% e 21,38€ a 20%. De seguida, vamos retirar o IVA dos produtos. Vamos só relembrar como isto se faz:
![]()
Como tal, temos os valores 43,42€, 20,65€ e 17,82€, referentes aos produtos com os IVA 5%, 12% e 20%, respectivamente. Acrescentando os novos IVA, ficamos com 46,03€, 23,34€, e 21,57€, referentes aos produtos com os novos IVA de 6%, 13% e 21%, respectivamente. De salientar que todos os arredondamentos foram de merceeiro, isto é, para o cêntimo superior.
Para finalizar, e como já tinha dito que ia às compras duas vezes por mês, podemos colocar as coisas em perspectiva: quando até agora gastava 180,18€, daqui para a frente gastarei 181,88€, ou seja, 1,70€.
Ah, e tal, isso é demagógico, porque também vai cortar nos salários líquidos. Certo, certo. Vamos então pegar num salário familiar padrão e continuar as contas?
Vamos imaginar um casal normalíssimo, com rendimentos brutos de 1700€. Ambos pagam 11% de Segurança Social, como toda a gente. Como têm um filho, pagam apenas 5% de IRS. Depois de tudo isto, ficamos com um salário líquido de 1428€. Vamos jogar para cima deste valor um subsídio de alimentação (que está isento de impostos) de 172€ e vemos que este casal leva para casa 1600€. Com a sobretaxa de 1%, ficam mais 17€ retidos, o que vem a dar 1583€.
Basicamente, e para finalizar, o Governo está a pedir a uma família perfeitamente normal que poupe menos de 20€ por mês, durante um ano e meio – até ver – para ultrapassar a crise… Eu olho para a taxa de desemprego aqui dos nuestros hermanos (20%), para os cortes salariais1 e aumentos de impostos que eles implementaram, e pergunto ao meu Governo: o cheque é à ordem de quem?
1 Por acaso, não me chocava nem um bocadinho um corte de mais 1% ou 2% nos salários da função pública acima das duas vezes do salário mínimo. Sobretudo depois do disparate que foi (mais uma) tolerância de ponto dada hoje; mas sobre isso colocarei uma posta noutro dia…