Tenho um amigo, ligado à área dos servidores e alojamentos, que me diz muitas vezes que “a Google vai dominar o mundo”, e que o melhor é mentalizar-mo-nos rapidamente. Eu, que até sou fã da Google, tenho algum receio. As posições dominantes numa área específica não me incomodam (caso da Microsoft nos sistemas operativos, da Apple nos leitores de MP3 ou, até recentemente, da Nokia nos telemóveis), mas quando começam a ser dominantes em várias áreas, especialmente em áreas críticas… devagar com o andor, que o santo é de pau!

Yep, e esta última frase é (quase) literal: por muito que eu acredite na boa fé da Google – e acredito – também acredito que aquilo é uma empresa que tem dar lucro. Muito lucro. E depois de estarmos todos adormecidos com tantas carícias e cantos de sereia, vamos acordar para um mundo googlificado – e vamos gostar!

Ok, esta posta é meio a brincar – mas também é meio a sério. O meu pai sempre me ensinou que, num cenário de invasão, as forças atacantes têm de controlar ou destruir as infra-estruturas energéticas, os meios de comunicação social e as infra-estruturas de comunicações. Podem perguntar que raio de pai ensina isto a um filho; e eu respondo, um pai que foi militar 40 anos. :)

Vamos então aos planos…

Google Energy

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A Google recebeu, em Fevereiro, autorização para criar uma empresa no sector energético. O pedido foi feito à entidade reguladora do sector, nos Estados Unidos, tendo em vista a produção energética para consumo próprio, com recurso a tecnologias de produção renováveis.

O pedido faz sentido: os enormes datacenters da Google consomem recursos energéticos ao nível de um pequeno país, não só nos próprios servidores, como também – e sobretudo – nos sistemas de arrefecimento. Para além da pequena cidadela que é o Googleplex, em Mountain View, California.

Voltando à tal autorização, a mesma permite à Google não só produzir a sua própria energia, como também negociar directamente com outros produtores, comprando energia em falta e… vendendo energia em excesso. Ora, olhando para exemplos da história recente da Google – como, por exemplo, comprar o Youtube por 1.650.000.000$ ou doar 2.000.000$ à Wikipedia – é fácil perceber que os tipos não deixam nada pela metade. Apesar da entidade reguladora norte-americana ter ficado com alguma corda do seu lado, reservando-se ao direito de revogar a licença a qualquer altura, espero pacientemente, mas confiante, pelo dia em que a Google venda o seu primeiro gigawatt.

Google TV

googletv Foi apresentada na quinta-feira, 20 de Maio, a plataforma Google TV, uma parceria, para já, entre a Google, a Intel, a Sony, a Logitech e a Adobe (entre outras companhias mais pequenas) para levar até nossas casas o que eles apresentam como “multimillion channel television”. Ainda não são conhecidos muitos pormenores, mas, pelos nomes envolvidos, é fácil supor que será algo como o cruzamento entre conteúdos online e IPTV. A Sony entra com a tecnologia da televisão em si, a Intel com o hardware necessário, a Google com o sistema operativo – que deve ser um superset do Android, de que falo já de seguida, e a Logitech com a tecnologia de periféricos.

O apoio da Adobe requer alguma explicação adicional. Para além do enterro que quiseram fazer à tecnologia Flash desde que o HTML5 passou ao estado de working draft (e se a W3C demora a passar de estados até chegar à recomendação final!), tem estado envolvida nalguma polémica nos últimos tempos com a Apple.

Só para terem a noção de como as coisas se processaram, os iPhone saíram sem suporte para Flash e, como é sabido, só é possível instalar coisas no dito vindas da AppStore – que, surpresa, não tem o Flash Player. Vídeos do Youtube? Jogos online? There’s not an app for that! Apesar de todas as desculpas, o fundamento é claramente de mercado: é obrigar os utilizadores do iPhone e, agora, do iPad, a comprar tudo pela AppStore e pelo iTunes. A grande jogada da Adobe foi incluir no novo Creative Suite 5 um conversor de aplicações em Flash para código nativo do iPhone. E foi quando a Apple introduziu uma cláusula no seu acordo para programadores a impedir o uso de ferramentas de terceiros… Muito mau vinho para aquelas bandas…

Depois de se ter ouvido falar que a Apple podia estar para lançar a sua própria plataforma de TV, acho que é óbvio porque a Adobe quis apoiar explicitamente – porque implicitamente apoiaria sempre, visto que a Google TV suportaria Flash – a plataforma concorrente. Vingança, pura e simples. E é bem feito. Não aprenderam rigorosamente nada na guerra Mac vs. Windows nos anos 90.

So, a televisão da Google é já ao virar da esquina. Com publicidade AdWords ou AdSense. Ligada à corrente da Google Energy. O que é que falta?

Telemóveis Android

androidOs telemóveis equipados com o sistema operativo Android começaram a sair (em força, vá) apenas no princípio deste ano, mas são, neste momento, a segunda plataforma mais vendida no mercado norte-americano para o primeiro quadrimestre, atrás apenas dos BlackBerry (os americanos têm uma tara qualquer por esta coisa). Isto é, e para que fique bem claro, ultrapassaram as vendas do iPhone.

O estudo é da independente NPD e o press-release pode ser visto aqui. Já agora, este artigo muito bom de Pete Cashmore (fundador do Mashable) é de leitura recomendada.

Como é lógico, os iPhone estão ainda na segunda posição de aparelhos vendidos globalmente, visto que estão à venda há mais tempo. E a palavra chave aqui é ainda… Sinceramente, ainda não percebi o que é que as pessoas vêm no iPhone; é só pelo cool factor? E Flash? E baterias removíveis? E possibilidade de instalar software meu ou livre? Por amor da santa, os primeiros nem sequer tinham 3G!

Lembram-se do meu amigo que costuma dizer que a Google vai dominar o mundo? Um tipo destes, ligado à web e à tecnologia? Confidenciou-me que comprou um iPhone para experimentar… Ia levando com um copo de Martini na pinha.

Como fã da Google e da Samsung, sou bem capaz de comprar este lindíssimo Samsung Galaxy Spica i5700. Querida esposa, se por acaso leres isto, estou só a brincar, que o meu i780 está aí para as curvas… Mas diz lá que não é lindo?

Mencionei que suporta o Flash Player?

Finalmentes…

Olhando para estas coisas em conjunto, realmente é de pensar que os tipos têm um master plan para nos dominar a todos. E, why not?

Caramba, a marca deles já é um verbo, e em várias línguas, incluindo a nossa! Quem é que nunca disse “deixa-me googlar aqui isto”… Dão-se ao luxo de substituir o logótipo na página da pesquisa, temporariamente, é certo, por desenhos onde desaparece toda a identidade da marca – chamam-lhes Google Doodles, e têm aqui um arquivo do que já passou por lá – e mesmo assim topa-se logo que é da Google.

Este exemplo, por ocasião do 170º aniversário do compositor Tchaikovsky, é dos mais paradigmáticos:

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Ainda hoje perdemos uns bons 10 minutos na empresa, maravilhados com o novo Google Doodle, celebrando os 30 anos do lançamento do jogo Pac-Man (eu nasci no mesmo ano e mês do primeiro grande jogo de vídeo – será coincidência que eu seja programador?). Eles levaram a coisa para além do esperado: é, não só, mais um Google Doodle muito bem conseguido, mas também é jogável! Yep, é mesmo isso, clicando no botão Inserir Moeda (que substitui temporariamente o Sinto-me com sorte), é possível jogar Pac-Man, com o rato ou com as teclas direccionais. E com os sons originais do arcade.

But wait, there’s more! Clicando de novo no Inserir Moeda, aparece também a Mrs. Pac-Man, sendo controlada pelas teclas WASD, para divertimento a dois. E tudo isto, sem recurso a Flash ou Java. É apenas (x)HTML e JavaScript. Um trabalho de programação e design simplesmente notável, que estará disponível em todo o seu esplendor até Domingo.

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É possível odiar uma empresa que faz isto? Que nos mima e surpreende dia sim, dia não? E nem sequer vou mencionar coisas absolutamente imprescindíveis para webdevs, como o Analytics ou o WebMasters Tools; nem falar no ubíquo GMail; ou do Google Docs; nem ao de leve tocarei no Google Maps, no Picasa, no Blogger, no Groups, no Scholar e no novíssimo Wave.

Mesmo que, um dia, dominem mesmo o mundo, como genialmente disse Rogério da Costa Pereira: “Que dominem, pior não fica”.

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