Ando para escrever esta posta há alguns dias, e tendo em atenção o que se passou hoje, ainda bem que não tive tempo. Se há coisa que me irrita nos políticos, e em todos os profissionais da comunicação que gravitam em torno dos mesmos, é justificarem decisões e combate político com argumentos pseudo-científicos. E quando começa a resvalar para a tecnologia, fico mesmo possuído. Já é difícil convencer as pessoas – sobretudo as mais velhas – que a tecnologia está cá para ajudar, sem ser preciso andarem estes melros a enfiarem-lhes macaquinhos sem cabimento pela goela abaixo. Para, repito, justificarem decisões e discursos do plano meramente político-partidário.

Pelo calibre dos discursos, artigos de opinião e postas de blogues, dou por mim a interrogar-me se todos eles leram Orwell, Huxley e Philip K. Dick, mas passaram à frente Asimov, Clarke e Sagan.

Por muito que eu gostasse de saltar a questão mais comezinha das portagens, não vou poder. As várias discussões que tive na ‘net nos últimos dias ensinaram-me que as pessoas não estão preparadas para discutir uma determinada tecnologia per se, sem o respectivo enquadramento prático imediato e sem conhecer a opinião do interlocutor sobre o mesmo. Como tal, quero deixar claro desde já: sou contra a extinção das SCUTs. Sou parte interessada; onde agora não pago nada para visitar os meus pais e os meus sogros, passaria a pagar 30 euros pela mesma viagem (ida e volta), caso fossem todas portajadas. Também não concordo com a proposta do Governo, apesar de não me afectar (ok, afectava-me numa dúzia de quilómetros): ou há moralidade, ou comem todos. Eu preferia que não comesse nenhum, mas não estou a ver a coisa a resultar dessa maneira.

Com isto fora do caminho, posso agora falar sobre a porcaria dos chips sem me acusarem de ter interesses na sua implementação?

Os chips são mesmo… chips

SN74HC11D Esta foi uma das últimas que apanhei, mas que, aparentemente, foi iniciada por António Nogueira Leite. Apesar do que escreve estar correcto, e ser entendível por qualquer um com dois dedos de testa, induziu em erro algumas pessoas. É que o chip, é mesmo um chip. Um chip é um circuito integrado, mas mais fácil de dizer. E um circuito integrado é uma porrada de coisas. Desde o processador Core i7 da máquina de onde escrevo isto, até uma coisa tão estúpida e incipiente como um pacote de três portas AND de três entradas (ao lado, uma versão deste pacote na sua versão SOIC, da Texas Instruments).

Enquanto que o tal Core i7 é uma peça de engenharia maravilhosa, com milhões de transístores (731 milhões, para ser mais exacto), capaz de fazer coisas tão fascinantes como, sei lá, perder uma noite a escrever esta posta, um pacote de três portas AND de três entradas nem para uma máquina de somar serve. Dois chips, ou circuitos integrados, diferentes funções. O que me leva ao ponto seguinte.

Os identificadores de matrícula são uns papagaios ignorantes

Sério, não sabem fazer mais nada do que gritar a mesma coisa de cada vez que são apertados. Cada um deles é ensinado a gritar um código único. Depois, quando se passa nos pórticos da Via Verde, ou os tais novos que já estão por aí ao alto nas SCUTs, esses pórticos dão-lhe um apertão na forma de impulso rádio. Ao sentirem-se apertados, estes primos distantes do Core i7 fazem a única coisa para a qual foram preparados, e berram o código que lhes foi ensinado. Só isto.

O chip em si não sabe a que matrícula pertence. Não sabe em que pórticos já passou. Não sabe há quantos anos viaja naquele carro. Não sabe quantos códigos já lhe ensinaram. Não sabe quantas vezes já foi lido. Nem por quem. Nem quando. Não sabe nada. É estúpido que nem uma porta. A única coisa que sabe, a única missão que tem na sua triste vidinha a aparar os mosquitos que se lhe embatem nas nossas auto-estradas, é gritar o seu código único de cada vez que lhe dão um apertão.

A privacidade é uma batata…

Não sei se já repararam, mas as pessoas que se ouve aos berros por causa da privacidade, já estão, por definição, a deitar fora a sua privacidade. Ou se sabe o nome, se for um blogger ou um cronista de jornal, caso em que é possível chegar ao resto muito facilmente, ou se conhece a cara, se for o transeunte indignado na reportagem da TV, caso em que é um pouquinho mais complicado, mas com alguma engenharia social também se lá vai.

… mas também é um melão!

No caso em concreto de comunicações entre sistemas informáticos, como se mede a segurança do conjunto dos sistemas? Normalmente, considera-se o sistema tão seguro quanto o seu ponto mais fraco. E como se mede a privacidade? Pela quantidade e sensibilidade da informação que chega ou parte desse ponto mais fraco.

Por exemplo, no cenário de estarmos a navegar na Internet, e imaginando o cenário ideal, onde a nossa máquina está inteiramente sob o nosso controlo e o servidor de destino é fidedigno, consideram-se os pontos mais fracos os pulinhos que a informação dá desde a nossa máquina até ao servidor de destino. É aí que podem ocorrer os chamados ataques man-in-the-middle, que, como o nome indica, quer dizer que está alguém no meio que não devia estar. A quantidade e a sensibilidade da informação que passa por aí é importante. Por isso confiamos em servidores com encriptação SSL, em que só a nossa máquina e a máquina de destino têm as chaves para abrir a informação (na realidade, existem quatro chaves distintas, duas de fecho e duas de abertura, em que as máquinas só têm as duas cruzadas – ler mais sobre o protocolo RSA na Wikipedia).

Voltando aos nossos chips. Eu não sei como o sistema vai ser construído, mas a rapaziada do ISEL não tem fama de estúpida. E a rapaziada da CNPD também não (bem, talvez um bocadinho lenta, mas estúpida, não). Em teoria, e se me perguntassem, o meu esquema seria algo deste género:

  1. O chip emite o código para o scanner dos pórticos (informação confidencial: zero);
  2. O sistema dos pórticos envia um pedido de débito de saldo para o sistema de portagens, com o código do chip e o código do pórtico (informação confidencial: zero);
  3. O sistema de portagens consulta o saldo correspondente aquele código e debita o valor correspondente ao pórtico enviado (informação confidencial: zero);
  4. No caso do saldo ser suficiente, o processo pararia por aqui.

Como podem ver, não ficaria guardado, em lado nenhum, a data de passagem no pórtico, nem qual o carro, nem qual a matrícula, nem nada. Zero. E no caso do saldo ser insuficiente?

  1. O sistema de portagens envia ordem de fotografia para o pórtico (informação confidencial: zero);
  2. O pórtico tira a fotografia, e devolve ao sistema de portagens (informação confidencial: zero);
  3. O sistema de portagens envia o código único e anexa a fotografia, com um pedido de coima, para o IMTT (informação confidencial: zero);
  4. O IMTT traduz o código único numa matrícula e pede informações sobre a mesma ao Registo Automóvel (informação confidencial: zero);
  5. O Registo Automóvel devolve o nome, número de contribuinte e morada do proprietário do automóvel ao IMTT (informação confidencial: depende);
  6. O IMTT emite a coima.

Aqui é onde aparecem os únicos dados confidenciais, e mesmo assim… Este conjunto de dados não é líquido que seja do condutor no momento, nem sequer do condutor habitual; estou-me a lembrar, assim de repente, de empresas de transportes, carros em regime de ALD ou leasing, e por aí fora. Além disso, isto não é diferente, em nada, de alguém que passe na Via Verde sem identificador, ou num radar fixo em excesso de velocidade. As preocupações de privacidade, a existirem, teriam de vir daí, e não de uma tecnologia nova.

E se não funcionar assim, e o Estado nos quiser controlar a todos?

Para isso serve a CNPD, o peer-review dos sistemas e, em última análise, os tribunais. Mas neste momento, não sabemos. Está tudo em aberto. Condenar à partida uma tecnologia que traria vantagens ao nível da rapidez, protecção do ambiente (os carros parados nas portagens, topam?), segurança rodoviária, para além de outros benefícios que eu veria no futuro, como o fim dos parquímetros, o fim do ritual de procurar a papelada toda a entregar numa operação stop – eventualmente, muito eventualmente, até o registo automático pelo nosso carro do código de outro carro que nos tenha batido, embora isto, provavelmente, já seja para os meus netos – é que é um bocadinho autista. Se sai um bocadinho da rotina, é um ai-jesus.

Ironicamente, o nosso país está no top 20 de países onde se usa o maior dispositivo localizador de todos, à excepção das trelas electrónicas das forças de segurança e informação: o telemóvel. E há sempre aqueles espertos “a operadora não sabe quem eu sou”. Pois não, mas quem estivesse mesmo interessado, com os recursos certos, sim… Para evitar isso teriam que comprar um cartão e um telemóvel novo (visto que o antigo seria identificável via IMEI – ou então mudar o IMEI, mas isto é crime ao abrigo da lei da pirataria informática) em dinheiro vivo. Fora de um centro comercial, por causa das câmaras. A uma funcionária com óculos fundo de garrafa. Com a loja cheia de gente. Não enviar nem receber SMSs que contivessem elementos identificativos, nomes, números, nada. Não contactar com ninguém do vosso círculo de conhecidos que tivesse telemóveis, digamos, identificáveis. Andar 100 quilómetros para cada lado de cada vez que quisessem fazer ou receber uma chamada, para evitar engenharia social. Ah, e, é claro, só colocar a bateria no telemóvel quando quisessem efectivamente usá-lo (desligado, só, não chega). Em suma, não usar telemóvel.

Aproveitando a época que agora se vive, chumbar esta tecnologia por causa de hipotéticas dúvidas ao nível da privacidade, sem se conhecer como o sistema vai ser construído, seria como proibir a selecção de ir ao Mundial porque a probabilidade de não sermos campeões é elevada. Não é preventivo, é só estúpido.

E era até aqui que eu tencionava escrever. Mas hoje…

O Parlamento chumbou os chips precisamente por causa disto tudo

Não, o Parlamento, como instituição do poder político, tomou uma decisão política. Aproveitou foi a cama já preparada pelos seus comentadores – a mando ou não, para o caso não interessa – para justificar a decisão política com as preocupações que foram enfiadas pela goela abaixo da opinião pública. Não nos vamos esquecer que, até imediatamente antes do chumbo, o PSD estava disposto a aprovar os chips, em troca de outras cedências. E se a opinião pública, na generalidade, tivesse meio cérebro, iria compreender que o PSD não mudou radicalmente de ideias em relação à tecnologia do chip – nunca teve foi a ideia de que a tecnologia, per se, fosse perigosa. Mas o chumbo, dourado com o preconceito da opinião pública, serve outros propósitos, no caso, o adiamento ou a suspensão das portagens nas SCUTs, de molde a forçar as cedências no modelo do Governo.

Que era, afinal, o que estava em cima da mesa.

Adenda

Sobre a questão ambiental relacionada com a cobrança electrónica de portagens, é favor continuar a ler aqui.

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Marco

És este IceBrain?

A privacidade não é um estado booleano.

Isso é naïve. A partir do momento em que dás o teu nome verdadeiro, ou os dados suficientes para se chegar ao mesmo (e basta uma foto e uma localização geográfica genérica), com um pouquinho mais de esforço e com os recursos certos, a tua privacidade acabou - de todo.

As minhas considerações não são de ordem política, são de ordem técnica. Eu também não quero pagar portagens (geez, quantas vezes vou ter de dizer isto); as vantagens do uso do DEM correctamente implementado são largamente superiores a portagens manuais.

Não me interessa a questão das estradas, dos pagamentos e o diabo a sete: interessa-me a questão tecnológia, e as vantagens que essa tecnologia traz para o dia-a-dia.

Além disso, a obrigatoriedade dos chips foi afastada ontem, com acordo entre PS e PSD. Qual é o método de pagamento alternativo: uma fotografia ao veículo e tens cinco dias para pagar. Parece-me bastante pior.

icebrain

A privacidade não é um estado booleano.

"Não sei se já repararam, mas as pessoas que se ouve aos berros por causa da privacidade, já estão, por definição, a deitar fora a sua privacidade."

Eu posso querer manter certas partes da minha vida privadas, e outras públicas. A escolha deve ser minha.

"Além disso, isto não é diferente, em nada, de alguém que passe na Via Verde sem identificador, ou num radar fixo em excesso de velocidade."

Lá está, eu não sou obrigado a usar Via Verde para passar em nenhuma estrada, e posso não andar em excesso de velocidade.

Eu não sou contra os chips - eu sou contra a obrigatoriadade de os usar para passar na estrada.

Além disso, se o chip é a única forma de passar, obriga um utilizador casual a arranjar o chip so para passar um par de vezes.

 

Os telemóveis são diferentes, porque tecnologicamente não há forma de usá-los sem estarem ligados a uma antena. O mesmo não se pode dizer sobre as estradas, obviamente.

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