Desde pequena, que a minha filha sofre de otites, associadas a alergias ao pólen. Nada de muito diferente de milhares de crianças, todos os anos. Como pais preocupados, falámos com a nossa médica de família, que nos marcou uma consulta para um otorrinolaringologista (ao qual me passarei a referir pelo coloquial otorrino, que otorrinolaringologista custa muito a escrever, embora pudesse copiar otorrinolaringologista e colar otorrinolaringologista sempre que precisasse de escrever otorrinolaringologista), no início do ano passado.

No entanto, e como não podíamos deixar a criança a sofrer, consultámos um otorrino privado, que fez vários exames e foi prescrevendo vários tratamentos ao longo destes quase dois anos. Ao mesmo tempo, ficámos a saber que o sistema informático do centro hospitalar tinha tido alguns problemas, e algumas consultas marcadas, incluindo a nossa, tinham desaparecido… A nossa médica de família remarcou essa consulta, desta feita com carácter de urgência.

No início do ano, o nosso otorrino privado, que entretanto descobrimos que é, também, um dos otorrinos do Serviço Nacional de Saúde, ao serviço do centro hospitalar, aconselhou-nos a proceder à remoção das adenoides, recorrendo ao privado, como é lógico. Quando já estava com o livro de cheques na mão (figurativamente, que não uso disso), pensei “espera lá, então não temos um SNS tendencialmente gratuito, precisamente para estas coisas?”.

Felizmente, conjugaram-se dois factores durante o Verão que nos abriram o leque de opções: a consulta foi, finalmente, marcada para o início deste mês (um ano e dois meses depois de ter sido pedida – com carácter de urgência), e as otites amainaram bastante.

Então, depois de um ano e dois meses de espera, lá fomos a uma consulta às 8 da manhã. O potencial cómico começava logo pela carta de aviso que nos tinham enviado, alertando que deveríamos estar presentes com meia-hora de antecedência; perguntei-me logo quem nos receberia, a senhora da limpeza, ou o guarda nocturno. Seja como for, às 8 lá confirmámos a nossa presença à secretária, e fomos encaminhados para a sala de espera.

Às 9.15, já desconfiado que o nosso SNS não deveria estar a funcionar no mesmo fuso horário de Portugal Continental, levantei-me para endereçar algumas perguntas à senhora da secretaria. Perguntei se o médico já tinha chegado – não sabia, talvez a auxiliar soubesse; perguntei quantas consultas tinha esse médico para as 8.00 – confesso que fiz a pergunta propositadamente desta forma para a pobre senhora se espalhar; é óbvio que a única resposta correcta, que devia estar na ponta da língua, seria “uma”, é um autêntico disparate marcar várias consultas para a mesma hora, embora saiba que é prática comum nalguns centros de saúde que conheço. Como é bom de ver, a senhora mordeu o isco, engoliu o anzol e um bom pedaço de linha, ao dizer “tenho que verificar”.

Depois de barafustar um bom bocado, voltei-me a sentar ordeiramente na sala de espera, de onde fomos finalmente chamados às 9.45. Ao entrar na zona dos gabinetes, vimos sair do gabinete do médico que nos ia receber uma senhora que tínhamos visto chegar pouco depois das 8. Suspirei e engoli o sapo inteirinho – já tinha tido a minha conta.

O médico olhou, apalpou pescoço e por trás das orelhas, apontou para dentro dos ouvidos luzes e lentes avulso e concluiu: está impecável. No entanto, e ao expressarmos a nossa preocupação por nos terem indicado o cenário operatório, acabou por marcar um teste audiométrico de imediato.

Pergunto: para quê? Não tinha certeza na sua opinião médica, corroborada, aliás, pela nossa descrição do quase desaparecimento das otites? Era mesmo necessário esse esforço extra ao SNS para confirmar uma coisa da qual ele deveria ter a certeza?

Enquanto esperávamos, continuava-se a afundar a minha (escassa) confiança no futuro do SNS. Sentado numa cadeira ao fundo do corredor, aguardando o final dos testes, assisti ao desfile: “Doutor, está aqui o avô da fulana de tal, pode dar-lhe uma vista de olhos?”, “Doutor, sei que lhe vou baralhar aqui o esquema, mas podia dar uma vista de olhos a este bebé?” e por aí fora, por quatro ou cinco vezes, até voltarmos a ser atendidos para uma análise rápida aos testes (que estavam óptimos) e uma rápida prescrição de medicamentos (para quê, não estava impecável?). Finalmente (finalmente!), foi chamado o paciente das 8.30. Eram 10.15.

Volta e meia, tenho algumas discussões com uns amigos enfermeiros, por causa do funcionamento, que eu considero extremamente ineficiente, do SNS. As experiências por que vou passando, infelizmente, não me retiram a razão.

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