Em casa, sozinho com as duas filhas, a mais velha de 7 anos, a mais nova de 10 meses. A esposa tem uma reunião até às tantas da noite. Depois de dar a sopa à mais nova e de mandar a mais velha tomar banho antes de jantarmos, sentei-me no sofá, com um olho no José Gomes Ferreira a zurzir nas PPP como se não houvesse amanhã, outro no parque, onde a mais nova balbuciava e batia com os peluches.

É nesta altura que a mais velha, tentando tirar partido da minha atenção já dividida, vem lançar a sua negociação.

— Sabes, pai, no Sábado vai haver um piquenique no parque... tem cavalos onde podemos andar, e barcos...

— Hmmm...

("...isto foi de tal maneira um conluio, que levou a que se favorecessem estes interesses todos...", dizia Gomes Ferreira).

— Podemos ir? – incentivada pela minha aparente distracção, faz a pergunta de chofre, pode ser que eu responda afirmativamente, só para abreviar a discussão.

— Tenho que falar com a mãe.

— Mas tu deixas?

— Sabes que eu e a mãe tomamos essas decisões em conjunto; depois dizemos-te.

— Mas se fosses tu a decidir, deixávas? – afinal, não tinha sido tão simples como parecia à primeira vista.

— Nunca seria eu a decidir uma coisa dessas sozinho, filha.

("...e a Procuradoria já vem tarde, porque já todos percebemos, há muito tempo...")

— E se a mãe não estivesse cá? Se tivesse ido para o Codebits, por exemplo... – e ri-se, nervosamente. A única pessoa que desaparece de casa sou eu, uma vez por ano, precisamente para ir ao Codebits. Eu estava a ver onde ela queria chegar: "afinal, quando não estás cá, a mãe tem de tomar as decisões sem ti". Falha: isso não é minimamente verdade.

— A mãe não me telefona, se tiver algum problema, quando não estou cá? Não falamos no Skype à noite, todos os dias que eu estou lá em baixo? Se fosse preciso tomar uma decisão a correr, que não é, eu também telefonava à mãe. – a mais nova agarra no sapato e interroga-se "ai é?", que é maneira dela perguntar "o que é?", e presta-se a responder com afinco, "atato", franze o sobrolho, "tapato", ainda não é isto, "tatato"; desiste e grita "ah ah ah ah ah", enquanto bate com as mãos nas pernas. Está-se a tornar difícil seguir os raciocínios de tanta gente e manter o meu coerente.

("...chama-se enriquecimento ilícito, que os nossos políticos não quiseram legislar.")

Sente-se encurralada, e tenta a última cartada: o cenário impiedosamente lógico, plausível e tétrico.

— Então imagina que a mãe não existia; tinhas mesmo que decidir: íamos?

Não digo nada por momentos. Um, dois, três, a maximizar o desconforto dela. A mais nova, sentindo a tensão, cala-se e olha para mim: tem um olhar misto, meio receoso, meio vitorioso, como quem sabe que vem aí uma resposta que tem tanto de sarcástico como de contundente, que vai arrumar a discussão, e que não é ela que está na berlinda. Até Gomes Ferreira faz uma pausa dramática, como se, lá em Lisboa, sentisse que precisava de ajudar este pai, cá em cima, em Vila Real.

— Se a mãe não existisse, tu estavas no colégio interno, e esta discussão nem sequer se colocava. – digo-o muito claramente, quase soletrando as palavras, com uma cara de pau inabalável. Fito-a durante um segundo, e volto a prestar atenção à televisão.

("Isto é dum cinismo e duma frieza atroz.")

A minha filha mais velha passa por várias emoções em menos de um segundo. Pelo canto do olho, vejo-a passar da confusão à incredulidade, depois ao receio, de seguida à sobranceria de quem sabe que isso seria impossível e finalmente ao desalento, ao aperceber-se que, por improvável que fosse esse o cenário, é hipotéticamente tão provável como o cenário colocado por ela. A discussão tinha acabado, e ela sabia que tinha perdido.

— Quando a mãe chegar, não te esqueças de discutir o assunto com ela, está bem?

Criança sensata.

— Não me esqueço, não te preocupes. E se fôssemos jantar?

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