Hoje em dia há hipsters para todos os gostos: há os culturais (cinema independente, fotografia lomo e tilt-shifting), há os tecnológicos e há os dos costumes (movimentos LGBT, vegetarianismo, ambientalistas).

Mas como distinguir o hipster dos não-hipsters? Os que adoptam o perfil clássico do hipster (se um hipster é clássico, ainda é hipster?) são fáceis: os óculos com armações de massa, a roupa estilo vintage, a atitude geral de laissez-faire, laissez-passer, excepto no tocante à sua causa. Os outros, são mais difíceis, e é preciso discutir com eles para o descobrir – nesse caso, já é tarde demais.

O hipster é um supra defensor da sua causa, que não admite ser comparado com os defensores normais. Não vale de nada eu ter amigos gay desde muito novo, e até me ter "atravessado", socialmente e não só, por um ou outro ao longo dos anos: se não vou ao Pride, sou um homofóbico como os outros; não vale de nada eu gastar muito mais na manutenção do meu carro por o ter escolhido por ter filtro de partículas: se não tenho um Prius, sou um assassino da natureza; não vale de nada eu ter um computador em casa com 8 núcleos e 12 GB de RAM: se não é um Apple, sou um info-excluído. Não vale de nada a entrada do meu apartamento parecer uma sucursal da Arca de Noé (agora já não, que os hamsters e os peixes foram-se – resta a tartaruga): se não tenho três gatos e dois cães (todos resgatados, claro), não tenho nenhum respeito pelos animais.

Hipster Conundrum
Hipster Conundrum @ DogHouseDiaries - Creative Commons BY-NC

Depois de alguns anos a ter tido o desprazer de entrar em discussões com estes hipsters camuflados, aqui ficam três dicas a usar assim que se apercebam que estão a (tentar) discutir com um:

Nunca usar lógica

O ser humano, em geral, não está preparado para o pensamento lógico, de forma consistente; não é essa a maneira como os nossos fiozinhos estão ligados lá em cima, e isso até é bom, na medida em que nos dá capacidades que as máquinas não têm, como a criatividade. Ao longo dos anos, é-nos fornecida formação de base lógica, em disciplinas tão díspares como a matemática, a educação visual e a filosofia. No entanto, assim que o hipster deixa de precisar dos ensinamentos escolares, puf, vai-se a lógica.

Eu até admito que, como programadores, eu e os meus pares tenhamos uma dose de pensamento lógico consideravelmente mais elevada do que as outras pessoas, fruto de anos e anos de ensino formal e experiência com as nossas extensões digitais. Ao fim do dia, uma opinião, um conceito, uma decisão é uma mera expressão booleana: ou é falsa, ou é verdadeira. Até temos processos de resolução de problemas mais complexos: se um problema consiste em muitos problemas mais pequenos, divide and conquer; se um problema consiste em repetir o mesmo problema, com os mesmo parâmetros, muitas vezes, memoization; se um problema não tem uma resposta correcta, mas um conjunto de respostas mais ou menos aceitáveis, hill climbing ou simulated annealing.

Para a maioria das pessoas, é trivial que, se A decorre de B, e se C prova que B é falso, então A é falso. Seja qual for a desmultiplicação do problema, todas as respostas decorrem duma expressão destas. Para um hipster, isso são desculpas de quem é [inserir referência insultuosa aos opositores da causa].

Nunca apontar inconsistências

Toda a gente conhece um hipster do Prius. Fala maravilhas das poupanças ecológicas, da menor dependência dos combustíveis fósseis. E o silêncio? Maravilhoso.

Claro que, em modo elétrico, só dura cerca de 20 quilómetros. E demora, no mínimo, meia hora a carregar. E a energia para o carregar teve de vir de algum lado (hello, combustíveis fósseis). E a pegada ecológica duma bateria de lítio daquelas é consideravelmente elevada, desde a construção até à destruição e absorção pela natureza. Como já vimos no ponto anterior, a lógica não vale de nada (são desculpas para se poupar dinheiro e continuar a matar o planeta).

Mais: há sempre uma boa razão para a inconsistência. Se não comprarmos Prius agora, a marca não vai continuar a evoluir a tecnologia, para que os alegados malefícios (alegados, que o hipster nunca aceita a argumentação) eventualmente desapareçam. Esqueçam outras marcas, outras tecnologias, desenvolvimento em crowd sourcing. Já avisei que o raciocínio lógico não leva a lado nenhum.

Nunca dar a opinião pessoal sobre a opinião pessoal do hipster

Ainda (e sempre) relacionado com a impossibilidade de usar lógica, nunca dêem uma opinião pessoal sobre a opinião do hipster. O hipster não consegue distinguir entre um ataque à sua causa, opinião ou decisão e um ataque à pessoa. É atribuída a Eleanor Roosevelt a frase "grandes mentes discutem ideias, mentes médias discutem eventos, pequenas mentes discutem pessoas". A defesa da sua causa faz encolher a moleirinha de um hipster até ao tamanho de uma ervilha.

"As pessoas que maltratam animais deviam ter o mesmo tratamento que dão aos animais". "Isso é desproporcionado". "Estás-me a chamar desproporcionado?" Wait, what? "Devia haver um registo nacional de poluidores". "Isso é uma prática digna da PIDE". "Eu não te admito que me chames salazarista!". Oh, por amor da santa, vê se cresces!

Não é por uma opinião ser estúpida, que a pessoa é estúpida. Claro que, se só tiver ideias estúpidas, é melhor analisar a pessoa com outro cuidado, mas ainda não encontrei ninguém assim. "Estás a dizer que eu sou estúpido?" "Não, estou a dizer que essa ideia em particular é estúpida; ora diz lá a primeira ideia que te vier à cabeça." "Vamos beber uma cerveja." "Estás a ver, ideia de primeira categoria. Não és nada estúpido."

Conclusão

Não discutir com hipsters, ponto. Se for possível distingui-los por observação visual, evitar a sua causa a todo o custo. Se não for, estar atento ao menor sinal de alerta de que o tema corrente é a causa e tentar sair dele o mais depressa possível – provavelmente, por esta altura, já não há escapatória, mas tentem ao máximo. Tenham em mente que é virtualmente impossível saírem sem serem insultados, duma forma, ou de outra.

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