A ver posts de Março de 2013

Aqui há dias, por ocasião de ter atingido 500.000 subscritores, C. G. P. Grey colocou um vídeo com respostas a várias perguntas que lhe foram colocadas. Ao minuto 1:24, surge (traduzido):

O que é que achas que devia estar no currículo escolar mas não está? - Jamaal, Arizona

Programação informática. Eu fiquei meio chocado e horrorizado quando comecei a dar aulas no Reino Unido ao descobrir que não existia nenhum ensino real de programação informática.

Claro, existe um determinado número de aulas num dia, e todos querem que a sua disciplina de estimação seja ensinada nas escolas, pelo que a pergunta igualmente importante é o que deitar fora para arranjar espaço para a programação informática...

Interlúdio: o resto do vídeo vale bem a pena, assim como qualquer um dos vídeos dele. Subscrevam o canal (link no final).

Eu não podia concordar mais com esta opinião; mau seria, sendo eu programador. Precisamente por isso já ando a ensinar programação, usando Python, à minha filha mais velha. Não vou entrar em grandes considerações sobre porque é que a programação é importante, ou porque é que escolhi Python – talvez o faça um destes dias; duma forma resumida, programar é um exercício de lógica, resolução de problemas e raciocínio científico.

A parte problemática vem depois:

... e, sem a mais pequena hesitação, eu livrar-me-ia das aulas de língua estrangeira – afinal, a programação está-nos a aproximar cada vez mais de um tradutor universal.

Pois, fácil de dizer para um anglófono...

Para tirar já isto do caminho, ainda estamos a algumas décadas de um tradutor universal. Olhando para as dez línguas mais faladas (por nativos e não-nativos), saltam logo à vista alguns problemas bicudos, logo a começar pela primeira delas, o mandarim, e apanhando ali o hindi em quarto. Considerando até que nos focávamos apenas na lingua franca da ciência e da Internet, o inglês, os tradutores automáticos até para alemão – afinal, parte da mesma sub-família que o inglês – apresentam dificuldades. Ainda não estamos lá.

Originalmente tinha aqui uma tangente sobre a prevalência do inglês sobre o mandarim, mas, como é habitual nas minhas tangentes, ficou grande demais. Foi promovida a post de pleno direito, aqui.

mjamado's YouTube subscriptionsMas para além de ser a lingua franca da tecnologia, ou talvez por isso mesmo, os conteúdos anglófonos também são os mais abundantes e, embora seja uma generalização, perigosa como todas as generalizações, os de melhor qualidade. Como se pode ver pelas minhas subscrições no YouTube, aqui ao lado (links e descrições no fim), sou um grande apologista do vídeo enquanto ferramenta de aprendizagem para micro-temas, ou para pinceladas grossas sobre uma dada temática.

Para ser totalmente honesto, continuo a preferir livros para a minha área profissional e para aprofundar determinados temas. Também na vertente recreativa, primeiro o livro, depois o filme ou a série.

Eu não tenho problema nenhum em ver estes (e outros) conteúdos em inglês. Felizmente, tive sempre excelentes professores de inglês – um grande beijo para a minha professora de Inglês do ciclo, a professora Carla Costa – e a minha área profissional (e os estudos até lá) forçam-me a ler, escrever e "pensar" em inglês durante grande parte do dia.

O problema coloca-se quando quero partilhar alguma coisa com a minha esposa, que teve uma educação de língua estrangeira absolutamente pavorosa, ou com a minha filha mais velha, que está agora a começar a aprender em regime de enriquecimento curricular – que nem sequer é obrigatório, o que acentua ainda mais as diferenças educativas.

Neste momento, os recursos existente na 'Net são imensos; dá vontade de dizer "no meu tempo não havia nada disto". A esmagadora maioria está em inglês. Os conteúdos portugueses são poucos, e os que existem, de fraca qualidade (ai, estas generalizações).

Para voltar à sugestão de C. G. P. Grey, retirar o ensino da língua estrangeira para ensinar programação, é exequível em países não anglófonos? Óbvia e dolorosamente, não.

Portanto, pergunta ainda mais importante: as crianças de países anglófonos, partindo do princípio que os pedagogos desses países não andem a dormir durante muito mais tempo, terão uma vantagem educativa e, por extensão, competitiva, em relação às crianças do resto do mundo? O que é que podemos fazer para anular essa vantagem, dado que não podemos prescindir do ensino do Inglês? Começá-lo mais cedo, para que as crianças atinjam a fluência também mais cedo? Quão mais cedo? Dar-lhe uma maior carga horária, nomeadamente em regime obrigatório, ao contrário do que é feito actualmente? Ou reduzir carga horária noutras matérias? Quais?

A minha preocupação não é tanto com as minhas filhas, mas sim com a educação em geral. Não faço segredo sobre o meu sistema de educativo preferido: a tutoria, focalizada nos interesses da criança, desde o mais cedo possível. Possível por padrões actuais? Nem por sombras. Não vejo solução. Não há alguém a quem claramente apontar o dedo ou exigir medidas, sobretudo por não ter ideia absolutamente nenhuma de que medidas seriam necessárias.

É um enigma. Resolvê-lo poderá ser essencial para prepararmos competitivamente a próxima geração para os desafios do futuro.

As minhas subscrições no YouTube

Por ordem alfabética, para não ferir susceptibilidades...  ;)

  • C. G. P. Grey – Micro-temas explicados em pouco tempo, normalmente com recurso a animações e infografias animadas. Quase todos os vídeos têm um creeper do Minecraft, a diversão de os procurar é um bónus adicional. Generalista;
  • Crash Course! – Na realidade, este canal contém seis séries diferentes: Biologia, História Mundial, Literatura Inglesa, Ecologia, História dos EUA e Química. Confesso que ainda só vi a série sobre História Mundial, mas a qualidade deve ser transversal. Apresentado pelos irmãos Green, Hank e John, que também mantêm o VlogBrothers e não só. Aspecto e conteúdo muito profissional;
  • MinutePhysics e MinuteEarth – Criados por Henry Reich, animações desenhadas à mão sobre física e o nosso planeta Terra, respectivamente. Este último começou agora em Março (à data que escrevo isto, ainda só tem um vídeo). Dica: nenhum vídeo tem, na realidade, apenas um minuto;
  • Numberphile – Como o próprio nome indica, um canal sobre números. Os convidados são sempre pessoas com imenso entusiasmo – e conhecimento, claro. O criador, Brady Haran, tem outros canais interessantíssimos;
  • SciShow – Apresentado por Hank Green (metade dos VlogBrothers), sobre, adivinharam: ciência. Normalmente, micro-temas, mas alguns são explicações para pessoas "normais" de temas mais vastos;
  • SmarterEveryDay – Conteúdos com o que é normalmente chamado de "ciência prática". Destin, o criador, tem um entusiasmo muito contagiante;
  • Vsauce – Canal sobre tudo e um par de botas, mas com alguma incidência em ciência e tecnologia. Teve alguma exposição memética recentemente com o vídeo The Science of the Friend Zone.

Há muitos outros, para todo o tipo de gostos. Inclusivamente, há outros que eu gostava de seguir, mas, hey, o dia ainda tem uma quantidade limitada de horas...

Comentários Nenhum comentário Continuar a ler Continuar a ler »

Este post é uma tangente deste.

Porque é que é o inglês a lingua franca da ciência e tecnologia, e não o mandarim?

Soldados Americano, Chinês e Inglês com as respectivas bandeiras
Foto por: Governo do Reino Unido, Outubro de 1943 – Domínio Público

Quando consideramos a quantidade de falantes nativos, temos (em estimativas de 2010) cerca de 955 milhões de nativos em mandarim, basicamente na China (Taiwan e Malásia contribuem com muito pouco, Singapura ainda com menos), e cerca de 359 milhões em inglês, espalhados por Reino Unido, EUA, África do Sul, Austrália, Canadá e uma série de outros.

Esta dispersão já poderia ser justificativa, mas a verdade esconde-se na quantidade combinada de falantes nativos e não-nativos: 1150 milhões para o mandarim, contra 1000 milhões para o inglês. A diferença esbate-se, a dispersão geográfica joga a favor do inglês e conclui-se, de caras, que a esmagadora maioria do total de falantes de mandarim está enfiada no mesmo sítio: a China. 

Mas falta ainda explicar porque é que o inglês se espalhou tanto entre não-nativos (quase duas vezes mais não-nativos do que nativos), ao contrário do mandarim, o que é fácil: o inglês é a língua nativa dos países onde começou a revolução industrial (o Reino Unido) e a tecnológica (os EUA); o mandarim é a língua nativa duma ditadura comunista, de costas voltadas para o ocidente, cuja única tentativa de apanhar o comboio da revolução industrial, com mais de 100 anos de atraso (o Grande Salto em Frente de Mao Tse-tung) redundou num falhanço de proporções épicas.

Os países que efectivamente quiseram acompanhar as revoluções industrial e tecnológica tiveram que entender o know how que lhes era transmitido. E "know how", assim mesmo em inglês, foi intencional.

Comentários Nenhum comentário Continuar a ler Continuar a ler »
 Categorias
 Arquivo
 Projectos em Destaque
 Últimas Postas no Blog
 Últimos Comentários do Blog