A ver posts de Junho de 2013

Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Este post encerra uma série que começou aqui, passou por aqui e por aqui.


Finalmente, no ensino superior tive o ensinamento mais trágico-cómico (dependendo do lado da barricada) dado por um professor.

O professor Carlos Carreto, PhD, era um professor extremamente ocupado. Era orientador de projectos finais, estava envolvido no projecto robô-bombeiro, também naquelas carripanas que andam quase um milhar de quilómetros com um litro de gasolina e ainda dava aulas; a mim, de Computação Gráfica e Interfaces.

Adicionalmente, não tinha papas na língua e dizia o que pensava em qualquer altura. Em determinada conferência, integrada na semana aberta do instituto, ia havendo um motim entre os alunos quando ele defende que os alunos de Informática, pelo menos, deveriam ser obrigados a entregar todos os trabalhos em inglês.

Eu já trabalhava e tinha um arranjinho com a minha chefe de secção para ter sempre folga à quarta-feira, que era o dia em que tinha mais aulas, sobretudo práticas. Como tinha de ser extremamente focado e eficiente na gestão das minhas horas (porque tinha Sistemas Digitais sobreposto na última hora de CGI), estudava afincadamente a matéria da aula prática no dia antes; quando lá chegava, conseguia orientar o projecto nas minhas duas horas disponíveis (as aulas eram de três horas), normalmente até em menos.

Como disse, o professor era extremamente ocupado; como tal, para as aulas práticas, disponibilizava o enunciado na 'Net dois dias antes, no próprio dia cedia o esqueleto do projecto e ia tratar da vidinha dele. Quando acabássemos, era só entregar o projecto na plataforma online e sair.

Os meus colegas demoraram duas ou três aulas a descobrir que eu era barra naquilo, e que despachava os projectos num instante. A meio do semestre, 90% da turma simplesmente copiava o meu projecto – eu estava-me nas tintas.

Na semana antes do exame, uma alma preocupada pergunta ao professor se ia sair código no exame. Este responde, ipsis verbis: “Não sai código no exame. Código, fizeram-no nas aulas práticas, e já conta para a nota. No exame sai a matéria das aulas teóricas”. Ora, isso era um problema para mim, que eu até já estava à espera, visto que não assistia às aulas teóricas.

A matéria teórica de CGI é matemática daquela mesmo à bruta, álgebra matricial e outras coisas assustadoras do género, e eu não tinha a mínima hipótese de manter a mesma nota que esperava da componente prática, até porque o exame valia 60%.

De qualquer forma, fartei-me de queimar pestanas nessa semana. No dia do exame já me tinha conformado com a minha sina, e só queria tentar não ter algo muito abaixo de 8. O exame é distribuído; olho para ele e… código. Complete o código. Encontre o erro no código. Qual é o resultado deste código. Código por todo o lado.

O meu colega, tão preocupado na semana anterior, insurge-se: “Professor, tinha dito que não saía código!”. O professor dá a resposta mais lacónica e épica de sempre.

“Menti”.

A minha teoria é que o copianço generalizado não lhe tinha passado despercebido. Em vez de anular os trabalhos a toda a gente, o que levaria a carradas de burocracia, preferiu atacar o problema desta forma.

Lição a reter (em inglês, como este professor gostaria que fosse): life's unfair, deal with it.

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Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Este post faz parte de uma série, que começa aqui e cuja segunda parte está aqui.


Infelizmente, passei pelo que é hoje chamado 3º ciclo sem ter nenhum professor verdadeiramente marcante. Porém, fui largamente recompensado no secundário.

Tive vários grandes professores do 10º ao 12º. Quero falar em particular de um, mas não posso deixar passar outros sem algumas notas breves:

A professora Maria Manuel Candal (irmã de um dos mais épicos deputados da nossa 3º República, o Dr. Carlos “oh, António, você leu o papel” Candal), de Matemática, e que foi também nossa directora de turma. Senhora  de uma postura exigentíssima, tratava toda a gente por “pistótiras” e tinha uma pontaria inacreditável com bocados de giz, para a idade que tinha.

Quando quisemos organizar uma visita de estudo, disse-nos, e cito, “não vou com vocês nem até à Sé”. No final do 12º levou-nos a lanchar à pastelaria Diagonal; do outro lado da avenida, a Sé…

A professora Ana Paula, de Tecnologias de Informação. Outra professora com um grau de exigência absolutamente brutal e dona dum mau feitio a toda a prova. Nos dois anos que tivemos aulas com ela, acho que nunca a vi, sequer, sorrir. Anos mais tarde vim a saber que ela tinha sido fundamental na nossa defesa numa guerra que nos passou ao lado – havia professores apostados em que o Curso Tecnológico de Informática falhasse em toda a linha (movimento liderado pelo Orelha Ratada, de quem fizemos queixa, em bloco, ao Conselho Directivo, porque o homem faltava que era obra, mas os testes assumiam a matéria que ele nunca tinha dado).

O professor de Filosofia, do qual já perdi o nome – mas a quem chamávamos carinhosamente Führer, à pala do bigodinho – sabia que tinha ali uma frente perdida (sinceramente, que pedagogo é que acha que é boa ideia ter Filosofia no Curso Tecnológico de Informática?) mas nunca desistiu, mesmo sob boicote aberto. Aliás, o boicote foi de tal ordem, que teve mesmo de chumbar três alunos no 11º ano. Como era disciplina de dois anos apenas, a escola foi forçada a ter um exame nesse ano para três alunos. Lamento informar que eu era um desses três; sério, professor, lamento ter-lhe feito a vida negra nesses dois anos, mas estava na minha fase Schoppenhauer e… acontece.

Finalmente, o professor que mais marcou a minha aprendizagem. No 12º existia a única cadeira da nossa área que tinha exame nacional, Estruturação, Organização e Tratamento de Dados. Tínhamos ouvido uns zunzuns que íamos aprender Visual Basic, o que nos tinha deixado expectantes: finalmente, programação com GUI moderna, depois de dois anos de volta de Pascal e C

Na primeira aula, o professor Rui Lopes entra e declara, sem rodeios: “nunca trabalhei com Visual Basic, por isso, vamos todos aprender ao mesmo tempo”.

Pânico. Aquela gaita tinha exame nacional.

Lição número 1: menu Ajuda. Hoje em dia é um bocado patético (muitos programas, sobretudo na área mobile, já nem trazem), mas na altura era um recurso de valor incalculável. Pesquisar na Ajuda, sobretudo abrangendo todo um ambiente de desenvolvimento, incluindo a própria linguagem, tinha muito que se lhe dissesse, e o professor Rui Lopes tinha um vasto conjunto de truques para chegar rapidamente aos resultados pretendidos.

É preciso salientar que estávamos em ’97, e a parte mais movimentada da 'Net era o IRC. O Stack Overflow ainda estava a 10 anos de distância.

As aulas eram sempre bastante animadas; nem demos conta que, na realidade, estávamos a ter duas disciplinas numa só – a professora de Aplicações Informáticas, disciplina que fazia parelha com EOTD, andava a tirar o mestrado e aproveitava as nossas aulas para estudar; nós aproveitávamos para jogar Heretic em rede. No final do ano, a nossa turma teve notas excelentes no exame nacional.

Do professor Rui Lopes ficou-nos o fundamento da aprendizagem por conta própria. Nunca a sigla RTFM fez tanto sentido como naquela disciplina.

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Este post faz parte de uma série, que começa aqui.


No ciclo preparatório tive três grandes professores.

A professora Carla Costa, de Inglês, que mencionei de passagem aqui, com a qual vimos todas as aventuras do Big Muzzy. Mostrou-nos que aprender pode, e deve, ser divertido.

A professora de Ciências, que infelizmente já esqueci o nome, senhora de meia idade que carregava violentamente no perfume, sempre bem vestida e que tratava os alunos por você. Lembro-me particularmente duma aula em que nos forçou a apresentar provas de que a Terra é redonda (os mastros dos navios ao longe, a sombra nos eclipses lunares e por aí fora). Mostrou-nos que a aprendizagem é mais compreensão e raciocínio do que memorização.

O professor João Vieira, de Educação Física. Já não me lembro o que foi, mas certa vez aprontámos alguma que o desagradou profundamente. A maneira de o demonstrar foi rebentar connosco naquela hora. Não sei como o conseguia, mas não havia a mínima hipótese de fingirmos que nos esforçávamos, deu mesmo cabo de nós naquele dia.

Noutra altura, apresentou-nos um teste escrito, coisa inaudita em Educação Física. Deu a hipótese de ser com ou sem consulta e deitamo-nos no chão do ginásio a fazê-lo, dum lado com consulta, doutro lado sem. Eu e mais quatro ou cinco colegas achámos que aquilo cheirava a esturro (e, confesso, não tinha o manual da disciplina comigo) e fomos os únicos a fazê-lo sem consulta. Só no final o professor informou que os sem consulta seriam bonificados automaticamente em 10 pontos.

Com ele aprendi que, por mais subvalorizada que pareça uma tarefa, é para fazê-la sempre com brio e máxima dedicação e que o caminho mais difícil é, normalmente, mais recompensador.

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Secretárias escolares
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Durante o meu percurso escolar, tive uma dúzia de professores francamente maus (científica ou pedagogicamente, nalguns casos, em simultâneo), a esmagadora maioria era meh e uma dúzia deles muito bons.

Numa altura em que anda para aí toda a gente excitada com a luta dos professores, aproveito para escrever algo que andava há que tempos nos meus planos: uma série sobre os professores que me marcaram pela positiva. Isto não é sobre a luta dos professores – tenho uma opinião sobre isso, como, aliás,  qualquer pai devia ter, mas este post não é sobre isso e essa opinião ficará para outros locais.

É só um arremedo de homenagem aos melhores professores que tive.


A meio da primeira classe pedi ao meu pai para me trocar para a turma do professor Jaime. Quando um catraio de 7 anos pede para trocar de turma, podem ver o calibre da professora que eu tinha (eu disse que não ia falar sobre maus professores e logo a abrir já me desbronquei – em abono da senhora, ela não andava bem de saúde; ouvi dizer anos mais tarde que tinha metido baixa psiquiátrica até à reforma).

Professor da velha guarda, era, na altura, o director da escola (numa altura em que os directores de escola não tinham grilhetas burocráticas e ainda podiam dar aulas). Tinha uma mui respeitável cana-da-índia a que dava muito uso1, uma grossíssima régua de madeira a que dava ligeiramente menos e, em não tendo nada à mão, também não se coibia de distribuir uns tabefes…

… como daquela vez em que copiámos todos um problema de matemática pelo Joel que, quis o destino, estava errado, e correu-nos a todos ao estalo (menos a Dulcineia) antes de nos mandar para o recreio pensar sobre o assunto (e esfregar as bochechas).

Mas também vinha jogar futebol no intervalo. E ensinava-nos a fazer aviões de papel que voavam mais tempo.

Já não me lembro se nos ensinava bem ou mal (já foi há mais de um quarto de século, porra!), mas tenho uma vaga ideia que só chumbaram três ou quatro tipos na quarta classe (sim, a rapaziada chumbava mesmo na primária), por isso presumo que nos tivesse ensinado bem.

Mas o que ficou dessa altura foi respeito (não confundir com medo, que também lhe tínhamos um bocadito), rectidão e responsabilização por actos próprios.


1 Devido ao uso intensivo da cana-da-índia, volta e meia, estava partida, mas nunca passava muito tempo até aparecer outra. Certo dia, num desses interregnos sem cana, o nosso colega Garcia, cujos pais tinham uma quintinha, traz uma cana novinha em folha para oferecer ao professor. Está bom de ver que foi o primeiro a roer com ela nos costados, passado umas horas...

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Boa tarde,

O meu nome é ****** e sou uma web editor de argumentos sobre poker e jogos online.

Entrei em contato anteriormente mas não obtive resposta.

Tive a oportunidade de visitar o vosso site e gostaria de saber se poderiam estar interessados numa colaboração editorial.

Agradecendo antecipadamente a vossa atenção, apresento os meus melhores cumprimentos,

******

E porque será que não obteve resposta?

Porque, como editora de conteúdos, deveria dar mais atenção aos conteúdos. Eu falo em Poker no DreamsInCode exactamente uma vez (aqui), e é, claramente, de raspão. Não falo em jogos online de todo.

Porque sou, como é trivial de verificar, apenas uma pessoa, pelo que é absurdo - e mais uma vez denota que o trabalho de casa não foi feito - falar em "vosso site", "poderiam estar interessados" e "vossa atenção".

Porque fala numa "colaboração editorial" e não diz nem com quem, nem em que moldes. Não há absolutamente nada no seu e-mail que identifique em nome de quem se apresenta, não dá um único exemplo dessas tais colaborações editoriais, nem quais as vantagens das mesmas.

Porque, enfim, eu tenho mais que fazer do que responder ao que tem todo o aspecto de ser spam (tanto no sentido tecnológico do termo, como na acepção de fiambre enlatado, desenxabido e gorduroso). Excepto, claro está, quando a insistência já pede uma abordagem mais pedagógica.

Como esta.

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