Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Este post encerra uma série que começou aqui, passou por aqui e por aqui.


Finalmente, no ensino superior tive o ensinamento mais trágico-cómico (dependendo do lado da barricada) dado por um professor.

O professor Carlos Carreto, PhD, era um professor extremamente ocupado. Era orientador de projectos finais, estava envolvido no projecto robô-bombeiro, também naquelas carripanas que andam quase um milhar de quilómetros com um litro de gasolina e ainda dava aulas; a mim, de Computação Gráfica e Interfaces.

Adicionalmente, não tinha papas na língua e dizia o que pensava em qualquer altura. Em determinada conferência, integrada na semana aberta do instituto, ia havendo um motim entre os alunos quando ele defende que os alunos de Informática, pelo menos, deveriam ser obrigados a entregar todos os trabalhos em inglês.

Eu já trabalhava e tinha um arranjinho com a minha chefe de secção para ter sempre folga à quarta-feira, que era o dia em que tinha mais aulas, sobretudo práticas. Como tinha de ser extremamente focado e eficiente na gestão das minhas horas (porque tinha Sistemas Digitais sobreposto na última hora de CGI), estudava afincadamente a matéria da aula prática no dia antes; quando lá chegava, conseguia orientar o projecto nas minhas duas horas disponíveis (as aulas eram de três horas), normalmente até em menos.

Como disse, o professor era extremamente ocupado; como tal, para as aulas práticas, disponibilizava o enunciado na 'Net dois dias antes, no próprio dia cedia o esqueleto do projecto e ia tratar da vidinha dele. Quando acabássemos, era só entregar o projecto na plataforma online e sair.

Os meus colegas demoraram duas ou três aulas a descobrir que eu era barra naquilo, e que despachava os projectos num instante. A meio do semestre, 90% da turma simplesmente copiava o meu projecto – eu estava-me nas tintas.

Na semana antes do exame, uma alma preocupada pergunta ao professor se ia sair código no exame. Este responde, ipsis verbis: “Não sai código no exame. Código, fizeram-no nas aulas práticas, e já conta para a nota. No exame sai a matéria das aulas teóricas”. Ora, isso era um problema para mim, que eu até já estava à espera, visto que não assistia às aulas teóricas.

A matéria teórica de CGI é matemática daquela mesmo à bruta, álgebra matricial e outras coisas assustadoras do género, e eu não tinha a mínima hipótese de manter a mesma nota que esperava da componente prática, até porque o exame valia 60%.

De qualquer forma, fartei-me de queimar pestanas nessa semana. No dia do exame já me tinha conformado com a minha sina, e só queria tentar não ter algo muito abaixo de 8. O exame é distribuído; olho para ele e… código. Complete o código. Encontre o erro no código. Qual é o resultado deste código. Código por todo o lado.

O meu colega, tão preocupado na semana anterior, insurge-se: “Professor, tinha dito que não saía código!”. O professor dá a resposta mais lacónica e épica de sempre.

“Menti”.

A minha teoria é que o copianço generalizado não lhe tinha passado despercebido. Em vez de anular os trabalhos a toda a gente, o que levaria a carradas de burocracia, preferiu atacar o problema desta forma.

Lição a reter (em inglês, como este professor gostaria que fosse): life's unfair, deal with it.

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