Viagem
A partir desta foto de Proctor Archives – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Tento dormir. Nesta altura do ano, Vila Real transforma-se em Abafodopólis. A leve brisa, conseguida deixando quase tudo aberto, vai agitando as cortinas para fora da janela, como quem acena ao Verão que vai passando. Nalguma aldeia na encosta do Alvão, uma banda de baile esgota os últimos acordes de “Atira’tó mar e diz que t’empurrarem” e logo ataca corajosamente “Menina estás à janela”, versão dos UHF.

As festas destas aldeias não são nesta altura por acaso. Nem, aliás, as da própria cidade, cheia de animação em Agosto. Numa zona do país fortemente marcada pela sangria populacional, é agora que os filhos da terra voltam. Alguns, vêm do litoral, do norte ao sul; outros, mais, de muito longe. Enteados de Portugal, pontapeados pela vida daqui para fora, escorraçados como um cão que já ninguém quer. Que voltam.

Não falo da rapaziada que emigra nestes dias. Armados dos seus mestrados de Bolonha, com um conhecimento da língua e das culturas dos países de destino, mapas das novas cidades onde vão morar nos seus smartphones e contratos de trabalho que até incluem alojamento. Esses são uns mimados. Isto é emigração para meninos.

Os que voltam agora foram os que daqui saíram com a roupa que tinham no pêlo, toma lá uma broa que não hás-de comer antes de passar Burgos e põe-te a mexer antes que te arrependas. Emigrantes dos finais dos anos 1970 e 1980, com uma crise que fazia esta parecer uma arrelia (e cujo primeiro-ministro da altura, estranhamente, parece já ter esquecido), com um tecido empresarial que era uma anedota e uma agricultura de subsistência, sobretudo aqui no Norte, que dava os últimos gemidos antes do estertor final, eutanásia europeia servida a subsídios nos anos 1990.

E voltam.

Durante o dia, é quase um jogo matemático calcular a proporção de matrículas estrangeiras entre as portuguesas. França, Luxemburgo, Suiça. Uma ou outra do Reino Unido. O raríssimo corajoso que, sabe-se lá como, conseguiu trazer o jipe do Canadá. No shopping, à porta de restaurantes, a proporção é altíssima, lá para os 60% ou 70%. Até a normalmente muito sossegada rua sem saída do meu escritório se enche de carros estrangeiros por esta altura, à custa do conceituadíssimo restaurante Mateus.

E nós recebemo-los bem, não é? Não lhes chamamos avécs. Perdoamos os deslizes gramaticais e as expressões idiomáticas mal traduzidas dos seus países de acolhimento. Compreendemos, sem nos exasperarmos, as intermináveis ladaínhas de “lá na France isto não é nada assim”. Não criticamos a saloice que, afinal, é muito nossa (lá fora é que não a apanharam de certeza). Não zombamos dos gnomos de jardim e das iluminações das suas casas construídas pelas suas próprias mãos em vinte longos verões, com ajuda dos primos que ficaram na terra. É assim, não é? Pois é…

E não nos esquecemos de louvar a coragem que tiveram, o imenso sacrifício pessoal de deixar o lugar que os viu nascer, as pessoas que os viram crescer, com pouco mais que a proverbial mala de cartão da Linda de Suza. Não nos esquecemos de agradecer as remessas, as famosas remessas que tanto jeito dão ao país nestes tempos de crise, e que tanto jeito deram na década de 1980.

E nunca – nunca – nos esquecemos de lhes agradecer virem gastar os seus francos, primeiro, os euros, depois, no País que não tinha lugar para eles. É assim, não é?

E eles voltam todos os anos, como andorinhas ao contrário.

O mínimo que lhes podemos oferecer é Quim Barreiros, Emanuel e Tony Carreira, com um cheirinho de Íris, UHF e Xutos para os mais novos, alguns já nem portugueses, mas cujos pais bem tentam que não esqueçam as suas origens.

Como o País, em tempos, se esqueceu deles.

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