Antes de continuar a escrever o que tenho planeado sobre o Codebits, tenho que dar aqui um salto para o final e para a entrega de prémios.

Este ano, pela primeira vez (pelo que é, também, uma novidade), participei de pleno direito num projecto – tenho participado noutros, mas por pouco mais do que apoio moral e carro-vassoura para quando a rapaziada se atola um bocado, e sempre de maneira oficiosa. Pessoalmente, gosto da liberdade que isso me dá: a liberdade de poder ajudar vários projectos (o que tem acontecido), a liberdade de poder ver as talks todas que me apetece sem sentir o peso do trabalho por fazer, o desprendimento – nunca total, porque acabamos por ter sempre favoritos – com que assisto às apresentações…

Este ano, no entanto, foi diferente; e foi diferente porque quem estava a precisar de ajuda era o brilhante Peter Bouda, que respeito muitíssimo desde que o vi implementar o Lego Coding em 2011. Estávamos sentados relativamente perto, e fomos trocando impressões logo desde o início da tarde de quinta-feira, quando ele ainda nem sabia o que ia fazer. Quando finalmente se decidiu pelo que veio a ser o Spelling Loom, vi logo que estávamos perante mais uma das suas fantásticas ideias. Ao final da tarde, fiquei mortificado quando me apercebi que o Peter não estava a conseguir encontrar um elemento fundamental para a sua equipa, um músico.

Fiquei em conflito comigo mesmo. Sou um compositor bastante medíocre, para não dizer pior, e já não compunha nem um compasso há mais de cinco anos – no entanto, deveria chegar. Mas… e a minha liberdade, o meu desprendimento, as 20 mil coisas que há para fazer no Codebits e que não ia consegui fazer? Além disso, a ideia era mesmo boa, para além da estrelinha que sempre parece acompanhar o Peter…

Acabei por arranjar uma solução de compromisso com a minha consciência e com ele: se até ao final da noite não conseguisse arranjar ninguém, eu atirava-me a isso na sexta-feira logo de manhã. Não conseguiu. Depois de ler algumas coisas durante a madrugada, experimentar alguns softwares de edição musical (lá está, não compunha à que anos e nunca tinha sequer composto em Linux, que é o que uso agora), atirei-me à composição mal cheguei à Sala Tejo na sexta-feira. Afinal, eram só quatro compassos, quanta asneira poderia eu fazer em tão pouco espaço? Parece que ainda alguma… De qualquer forma, para o que é, bacalhau basta, e a coisa acabou por sair menos mal a meio da tarde.

Gravar o vídeo de apresentação do projecto, e continuar a implementação furiosamente. Entretanto perdemos o Pedro Manha, o outro developer, que teve de ir embora ao início da noite.

No sábado, o projecto estava alinhavado, a preocupação passou para a apresentação final de 90 segundos e para a “ensaboadela” prévia frente ao júri. Fomos chamados, e lá fomos, eu praticamente como apoio moral, mas cujo papel me dava jeito para poder apreciar as reacções dos jurados enquanto o Peter apresentava o projecto e respondia às perguntas. Felizmente, aqueles 8 verdadeiros monstros da tecnologia não são tão durões como querem aparentar, e deixaram transparecer o seu agrado (foi épico quando o @poingg respondeu pelo Peter a uma pergunta com rasteira de outro jurado).

Saí relativamente confiante da sala. Excepto se houvesse muitos projectos realmente muito bons, mesmo que a apresentação corresse muito mal e fossemos esmagados no voto do público, teríamos qualquer coisa como um quarto ou quinto lugar do júri.

Durante as apresentações, houve alguns projectos bons, outros muito bons (o ToBITas foi épico), mas houve um que simplesmente colou a plateia: o NeLo. Espécie de joelheira inteligente que fica rígida ou solta consoante a intenção do paciente, para doentes de poliomielite, é tudo o que um projecto Codebits deve ser: tecnologia, oportunidade de negócio e a resolução de um problema de pessoas reais. A votação foi absolutamente esmagadora. É nestes momentos que me sinto orgulhoso de pertencer a uma comunidade que até pode parecer um bocado anti-social, mais preocupada com as suas maquinetas do que com as pessoas “lá fora”, mas que sabe reconhecer um problema da vida real quando o vê e premiar uma boa solução para este.

NeLo
Do site do NeLo

No final das apresentações, o meu tempo estava-se a acabar. Ainda tinha de voltar ao meu poiso nocturno apanhar as malas e saltar para o comboio, que não espera. Mas alguém me forçou a repensar os planos. Se calhar devia ficar até ao fim, já que nunca tinha conseguido (o Codebits arranja sempre maneira de acabar mais tarde do que o último comboio que me proponho apanhar)… Especialmente este ano, deveria ficar…

Fui convencido. Voltei para baixo e informei o Peter que ia a correr buscar as malas durante o intervalo e que ia tentar voltar, sem promessa de conseguir. Dei cabo dos meus gémeos pelo Parque das Nações abaixo e acima. Quando cheguei, já tive que ficar à porta e perguntei a dois rapazes à minha frente “o que é que eu perdi?”. A entrega dos prémios já tinha começado, e estava nos “laterais”, por assim dizer: Nuclear ChilliQuizz Show e semelhantes. Começam os prémios do público.

Sobe ao terceiro lugar o Telephone Operator as a Service (boa ideia, boa implementação e também uma boa apresentação). No segundo lugar ToBITas (que, como já disse, também era o máximo – pequeno robô operado remotamente com um BITalino). Neste momento, comento em voz alta, para ninguém em particular: “nenhuma surpresa, e agora ganha o NeLo”. Um dos rapazes vira-se para trás e diz “ou então o do tear, também teve bué da votos”. Eu rio-me e digo “esse é o nosso, mas se não ganha o NeLo, perco a fé na humanidade” (daí o título do post).

Deste album de Portugal Telecom

Quando é anunciado o Spelling Loom como vencedor do público, arranco por ali fora com sentimentos contraditórios. Que raio, claro que gosto de ganhar, mas… e o NeLo? A ideia era melhor, a implementação era melhor, até o caso de uso era mais nobre! Vejo o Peter subir ao palco enquanto navego por entre os puffs que abundam no corredor central. A Jonas atira-me uma boca quando lhe passo à frente (“não tinhas um comboio para apanhar?”). Subo ao palco e sussuro ao Peter “I'm still here…”. Pegamos nos prémios e saímos da sala. Dividimos as coisas à pressa e enfio as minhas às três pancadas na mala. Prometo ficar em contacto. Castigo ainda mais os gémeos até à Gare do Oriente, a mente dividida entre o comboio que eu tinha receio de perder e o NeLo que eu tinha visto perder…

Mas, claro, três dias muito cansativos e duas correrias não tinham deixado muitos neurónios a funcionar devidamente, mesmo com a imensa quantidade de cafeína ingerida. Enquanto espero ordeiramente para entrar na carruagem, penso “os prémios do júri!”. Desato a empurrar as pessoas. Devem ter pensado que eu era louco. Desgrenhado, vermelho que nem um pimento, a pingar água por todos os lados, duas malas a rebentar pelas costuras e a murmurar entre dentes “desculpe, desculpe”, só queria chegar ao meu lugar rapidamente e sacar do tablet. Atiro a mala da roupa lá para cima, quase despejo a outra mala em cima do banco para o tirar. Navego rapidamente até ao Sapo Vídeos e já só vejo uma sala a esvaziar-se. Salto rapidamente para o Twitter e suspiro de alívio.

timeline #codebits estava cheia de felicitações ao NeLo.

Deste album de Portugal Telecom

Era óbvio, se eu não estivesse tão burro das ideias, que os jurados quereriam premiar eles mesmos este projecto, independentemente da votação do público. Ainda para mais, tendo uma impressora 3D Beeverycreative para oferecer, e que é crucial ao projecto (o NeLo tem dentro umas peças impressas em 3D).

Eu ganhei alguma coisa. Mas fico muito mais contente pelo meu país poder contar entre os seus pessoas como o Basílio Vieira, o Pedro Leite e a Ana Carolina (e ouvi dizer que o Carlos Morgado também ajudou - mas esse seria sempre épico, pelo seu papel como Quizz Master).

Vós sois os maiores!

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