Neste fim-de-semana fui a um casamento (e não há nada melhor que um casamento - ou as bebidas alcoólicas que por lá se servem gratuitamente - para desatar um bloqueio de escrita) de um amigo, companheiro de muitas aventuras durante os loucos anos do ensino superior.

No final da noite (ou ao início do dia, visto que já eram quatro da manhã), depois dos últimos copos e estórias, dei por mim a pensar numa historieta que tinha no principal papel, precisamente, o recém-casado...

Decorria o UEFA Euro 2000, e tínhamos improvisado um lounge no nosso apartamento de estudantes para assistir aos jogos, com sofá, uma televisão de tamanho razoável e cerveja sempre fresquinha. Muita cerveja. Nessa altura morávamos quatro lá em casa: eu e mais dois que já lá estávamos há uns anos, e um rapaz cabo-verdiano há cerca de duas semanas. O nosso amigo agora recém-casado não morava connosco, era do prédio ao lado, mas passava lá a vida. Era assim uma espécie de Kramer (quem se lembra do Seinfeld?) que comia as nossas batatas fritas, jogava nos nossos computadores e usava a nossa retrete. Um prato.

Adiante... Estávamos já nos descontos de um Roménia x Portugal, empatado a zero. Luís Figo prepara-se para bater um livre, faz um compasso de espera enquanto outro jogador português corre devagar para a área. O nosso amigo, exasperado, grita “anda, preto do carago!”. Olhámos para ele em pânico, mas sem tempo para o admoestar: Figo cobra o livre, esse tal jogador salta e cabeceia para o fundo das redes. Golo de Portugal, Francisco da Costa, também conhecido por Costinha, o Ministro.

Depois dos saltos, dos chapadões nas costas e mais uma ronda de cervejas, lá lhe chamámos a atenção, “então, pá?”, “tu és louco?”, “‘tá o cabo-verdiano lá dentro, caraças!”. “E então, eu não sou racista”. E não era, de todo, facto que eu poderia atestar com várias situações que não vêm ao caso.

Como é que certos nomes ganham dimensão depreciativa? Preto, chinês, marroquino, cigano. Conheço uma ou duas pessoas a quem os amigos chamam “preto” e que o são, de facto. Trabalhei com uma marroquina a quem chamávamos, carinhosamente, “marroquina”. Estudei alguns anos com um tipo cigano a quem chamávamos “ganet” sem qualquer malícia (e por quem nos envolvemos certa vez ao milho com um tipo que lhe deu um pontapé no meio da avenida, sem qualquer razão).

Os “nomes” são aquilo que as pessoas querem que sejam. É incomodativo ao início? Talvez seja. Mas sei que estas pessoas de quem falei nunca tiveram problemas com quem lhes chamava daquela forma, sabendo que essa forma de tratamento seria mais um reconhecimento da amizade ou companheirismo, do que um insulto. E um insulto dos piores.

Um gajo corta a rotunda, “oh boi, calhou-te a carta no Cérelac?”, e responde ele, “vai lamber sabão, oh palhaço”; o mesmo gajo corta a rotunda, “oh preto, pareces uma avozinha”, o tipo para o carro em derrapagem, sai, deixa a porta aberta, e encaminha-se a passos largos para o desbocado.

Porquê a desproporcionalidade na resposta? Sim, sou preto. Sim, tenho pressa. Sim, não devia ter cortado a rotunda. Mas agora vou-te rebentar as beiças porque me chamaste por aquilo que eu sou. E dou de barato o pormenor da avozinha. Vá-se lá perceber. O tipo que vai levar na trombeta ainda há-de ter um genro preto, ou ser casado com uma preta, ou trabalhar com uma carrada de pretos, com zero problemas até este dia. E escrevi “pretos” umas poucas de vezes neste parágrafo propositadamente. Preto, preto, preto. Quando os “brancos” (pergunto eu, em Portugal, com toda a nossa história colonial e de mistura racial, quem é que pode atestar que é mesmo, mesmo branquinho em toda a sua linhagem?) deixarem de usar estes termos duma forma depreciativa, os pretos, os ciganos e os marroquinos vão deixar de se importar. Afinal, é só uma palavra.

Como os processos de pensamento são retorcidos, estava a escrever isto a pensar na minha filha.

Assim que o CPMS foi aprovado, decidimos conversar com ela a propósito disso, não fosse ela apanhar algum colega este ano com dois pais, ou duas mães (doutro casamento, ou duma adopção individual, ou o que seja – bem sei que ainda temos a completa aberração dos casais do mesmo sexo não poderem adoptar). “Sabes filha, podes vir a ter um coleguinha com duas mães ou com dois pais”, “Com dois pais?”, e ri-se. “Sim, filha, com dois pais”. “Está bem”. Isto foi fácil de mais. “Não vês nenhum problema?”, “Não, o Pedro não tem pais nem mães e a Teresa só tem uma mãe e uma tia”. Pois é.

Ainda assim, alguns dias depois decidimos voltar à carga, junto a uma amiga nossa que é lésbica. “Vês, filha, por acaso a Joana não namora, mas se namorasse, tinha uma namorada”. Pergunta ela à nossa amiga “Não gostas dos meninos?”, “Não, gosto de outras meninas”. “Eu também não gosto dos meninos, dão-me pontapés por baixo da mesa ao almoço”. Ah, a inocência da infância.

É esta inocência que a sociedade faz questão de extirpar das nossas crianças. Se o fizesse abrindo-lhes os pequenos olhos para a multiplicidade de condições, não só sexuais, como culturais, religiosas, étnicas, sociais e financeiras, estaríamos a prestar um excelente serviço às gerações futuras. Mas não, somos burros que nem umas portas: não fales, que são Jeovás; não fales, que são ciganos; não fales, que são paneleiros.

Filha, fala com eles, que são preconceituosos. Talvez tu possas furar a carapaça.

P.S.: Como é lógico, todos os nomes são fictícios; ou então, não. Mas é o mais provável.

P.P.S.: Um dos meus maiores amigos durante a infância e adolescência era preto. Mestiço, vá. A vida atirou-nos para caminhos separados, mas acho que continua a ser preto. E que continua a ser um tipo porreiro.

Ilustra esta posta o clip da música Call Me Coloured (Fucking Nerve), na versão dos Tongue Forest.

Esta posta foi oferecida à Pegada e publicada também lá.

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