As abordagens

Escola pública

Em preparação para a minha talk no Pixels Camp, e porque no Ministério da Educação estão todos muito ocupados para responder a e-mails de cidadãos comuns, contactei um professor de TIC que está a ministrar iniciação à programação no 1º ciclo. Isto é um projecto-piloto de dois anos, iniciado em 2015, cuja documentação, incluindo o conteúdo programático, podem encontrar aqui.

O professor Nuno Cunha, do Agrupamento de Escolas de Morgado de Mateus, Vila Real, teve a simpatia de me receber na escola e de trocar alguns e-mails sobre o assunto.

Voluntariado num colégio privado

Durante o Pixels Camp, tive o prazer de conhecer Gaspar D'Orey, que dispensa algum do seu tempo livre para ensinar iniciação à programação a crianças em final de pré-escolar, num colégio privado do Porto, em regime de voluntariado.

Foi uma proposta do próprio ao colégio que fosse iniciado o ensino da programação a crianças; vendo-se o colégio a braços com a escassez orçamental que é transversal no nosso país, propôs este regime de voluntariado.

CoderDojo

O CoderDojo é um movimento global de ensino de programação a crianças e jovens, gratuito, com mentores em regime de voluntariado. Em Portugal existem apenas 10: 3 em Lisboa, e depois em Lagoa (Açores), Beja, Abrantes, Santa Maria da Feira, Porto, Vila do Conde e Braga.

Este último é apoiado de forma mais ou menos oficiosa pelo Departamento de Informática da Universidade do Minho e pelo CeSIUM (Centro de Estudantes de Engenharia Informática), e os mentores são precisamente estudantes.

Já conhecia o Fernado Mendes de algumas edições do Codebits, mas só soube que ele era mentor do CoderDojo – ou que o CoderDojo existia – durante este Pixels Camp.

Irrita-me um bocadinho que uma coisa destas não exista em cidades e junto de universidades com tradição nas ciências da computação (looking at you, UA).

Para quem

Nas escolas, o programa incide sobre alunos dos 3º e 4º anos. Na área em questão (interior norte, crianças maioritariamente de contextos rurais), as crianças eram, no geral, oriundas de famílias de baixos rendimentos e de baixa literacia tecnológica.

No Porto, as crianças são do pré-escolar, entre os 3 e os 5 anos. Sendo um colégio privado numa grande zona metropolitana, as crianças são de famílias de classe média alta e superior, onde será expectável que a literacia tecnológica seja maior.

O CoderDojo de Braga abrange crianças e jovens entre os 7 e os 17, mas há uma maior incidência, embora ligeira, no segmento entre os 9 e os 12. Não há dados sobre o estrato social maioritário, mas o Fernando indica que todos trazem computador de casa, seja próprio, seja dos pais, pelo que deverá começar na classe média baixa. Também indica que a maior parte sente-se muito à vontade com um computador, donde podemos assumir que a literacia tecnológica deverá ser, pelo menos, média.

Uma constante das três abordagens é a completa ausência de distinção entre géneros. Em nenhum deles foi notado que as meninas fossem menos capazes, interessadas ou motivadas que os rapazes.

O interesse das crianças é bastante alto também nas três abordagens. Devido ao formato diferente do CoderDojo, o interesse descai ligeiramente ao longo do tempo, enquanto nos outros se mantém, graças ao seguimento encadeado de actividades e conteúdos.

Onde e como

Foi dado às escolas públicas alguma autonomia sobre como deveriam implementar o projecto-piloto. No Agrupamento Morgado de Mateus, optou-se por leccionar esta matéria como se fosse um actividade extra-curricular, isto é, depois das horas de aulas normais, tendo 90 minutos por semana.

Apesar de não ser obrigatório, todas as crianças quiseram comparecer. Optaram também por entregar esta função a um professor de TIC – o que me parece que faz todo o sentido.

O programa curricular é sugerido na página do projecto, mas, sendo um projecto-piloto, as escolas têm alguma margem para implementação do mesmo, até para poder sugerir alterações no final do mesmo.

No colégio no Porto, o Gaspar passa algumas horas de almoço com as crianças. Habitualmente, seja em colégios, instituições ou na escola pública, as horas de almoço são bem maiores do que o necessário para as crianças almoçarem, pelo que este regime resulta em tempo suficiente para estas actividades.

Os professores e educadores gostam da iniciativa e têm ajudado bastante, revelando também curiosidade. Não existe um programa curricular formal, mas estão a ser seguidas as orientações do software usado (ver mais abaixo).

O CoderDojo tem um funcionamento mais aberto – como os eventos são, em teoria, numa base first-come, first-served, não é garantido que os ninjas (assim se chamam os “alunos”) dum evento sejam os mesmo de outro. Por esse motivo, não existe de todo um fio condutor programático, mas estão a estudar formas de introduzir uma forma dos ninjas que queiram vir de forma contínua possam ter uma noção de progresso.

Os eventos regulares têm duas horas, de três em três semanas, no Departamento de Informática da Universidade do Minho, ao sábado de manhã. De três em três meses, existem uns eventos especiais, para maior contacto com o público em geral, no edifício GNRation, em Braga.

O quê e com quê

O professor Nuno Cunha está a seguir – com algumas adaptações – o sugerido na página do projecto-piloto. No entanto, devido à baixa literacia tecnológica dos alunos, foi perdido (ou investido, talvez seja melhor o termo) algum tempo no início do ano lectivo para que os alunos compreendessem conceitos básicos, como guardar o trabalho para continuar na sessão seguinte.

Está a usar fundamentalmente o Scratch, e alguns conteúdos do Code.org, quando possível. A ambientação ao Windows e a ferramentas do Office faz parte do currículo e também foi abordada.

A escola tinha alguns equipamentos remanescentes do programa Magalhães, e foi esse o hardware usado, depois de formatados e instalado o software necessário. O Ministério da Educação não se ofereceu para renovar o parque informático desta escola em particular, ignoro se o fez para outras escolas que quiseram participar.

O Gaspar está a usar o Scratch Jr, o que é apropriado para crianças tão novas. Como funciona como app completamente isolada, e como as crianças ainda tão novas não precisam propriamente de ter cada uma o seu tablet e de gravar o seu progresso individual, é muito fácil levar o tablet dele e mais dois ou três que pede emprestados no próprio dia.

O facto de ser necessário um tablet (iOS ou Android) poderá impedir algumas classes mais baixas de usufruir desta ferramenta extraordinária, mas num colégio privado não será um problema se as crianças quiserem continuar a explorar em casa.

Está a seguir as actividades propostas no próprio site do Scratch Jr.

O CoderDojo navega mais ao sabor daquilo que os participantes procuram. Habitualmente é usado o Scratch para iniciação, depois alguns jogos lógicos, como o Lightbot e o CodeCombat, mas também já se passou por HTML e CSS, Python e até Bash; também há sempre alguém que quer experimentar a brincadeira dos pop-ups infinitos em VB.

Os ninjas trazem as suas máquinas, mas o CeSIUM tem sido uma ajuda preciosa com Raspberry Pi, Arduinos, um eventual monitor e teclado que falta. Também estas múltiplas valências de plataformas, nomeadamente ao nível da computação física ajudam a manter o interesse alto.

Em conclusão

Que o ensino de programação a crianças é fundamental para hoje e para o futuro parece-me indiscutível e já aceite pelos governantes.

Um tema desta natureza tem que ser abordado ao nível do Estado. Não podemos deixar isto apenas nas mãos da boa vontade da sociedade, apesar de parecer que estão a fazer um melhor trabalho. Parece-me que o Estado, por bem intencionado que tenha sido este projecto-piloto, deixou as (poucas) escolas aderentes um bocado ao abandono, nem sequer dando feedback apropriado dos resultados obtidos ao fim do primeiro ano.

Não dotando as escolas dos meios necessários, este projecto ficaria sempre restrito às escolas que já tivessem a capacidade instalada, tanto ao nível dos meios físicos como humanos. Foi uma sorte este agrupamento que abordei ter um professor de TIC disponível e – o que será talvez mais importante – com o que me pareceu ser a motivação e entusiasmo necessário para levar as crianças à descoberta com ele.

Quando – e se – o Estado optar por tornar esta matéria obrigatória universalmente no primeiro ciclo, o trabalho da sociedade não poderá parar. Projectos de voluntariado como o do Gaspar D'Orey continuarão a ser necessários onde o Estado não obrigar, ao nível do pré-escolar e nos primeiros dois anos do primeiro ciclo. Eventos como os do CoderDojo poderão expandir para abordar temáticas não exploradas no ensino formal, como a computação física e a robótica, mantendo o entusiasmo de crianças e jovens para lá do que é obrigatório.

Neste momento, e ainda sem se saber o que vai ser decidido no Ministério da Educação no final deste projecto-piloto, em Junho, estas duas abordagens da sociedade são de enorme importância que continuem a acontecer e a desenvolver-se.

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