Depois de um longo interregno de sete meses, só haveria uma coisa a forçar-me a escrever por aqui novamente: uma nova edição do Codebits!

Este ano está a ser mais complicado arranjar tempo para escrever, por vários motivos; como tal, decidi mudar a estrutura dos meus posts. Em vez de um (ou mais) posts por dia, vou separar por pinceladas largas, aproveitando o facto de estar a escrevê-los praticamente depois do evento.

Without further ado, isto é o que há de novo este ano...

Pong

Cortesia da Artica, os participantes foram recebidos na área do palco principal com um gigantesco jogo de Pong. As pás eram controladas pelos participantes sentados de cada lado, usando reconhecimento de cores dos cartazes que estavam nas cadeiras.

Mas explicado não tem piada nenhuma. Este pequeno vídeo é bastante auto-explicativo (por Filipe Barreto):

Eu vejo isto a ser usado por grandes empresas naqueles eventos chatérrimos a que obrigam os funcionários a ir...

Covilhã UCodebits

Este ano vai ser realizado o primeiro UCodebits, evento especificamente direccionado às universidades. A decorrer no datacenter da Covilhã, terá apenas dois dias, e também terá uma hackathon; o interessante para os melhores participantes dessa será o ingresso na competição regular do Codebits, frente-a-frente com os projectos de cá.

Durante o anúncio – em directo da Covilhã em ecrã gigante – tive um pequeno flashback de Steve Jobs a apresentar Bill Gates como salvador da Apple em 1997...

MEO Wallet

Ok, não era exactamente novidade (já andava por aí discretamente), mas é bastante perto. Uma Google Wallet portuguesa, suportada pelo maior grupo de tecnologia e comunicações do país? Check. Depois de ver a funcionar em vending machines aparentemente normalíssimas, e de ver o jeitaço que poderá dar – até de formas disruptivas, com contas merchant a poderem receber pagamentos muito rapidamente – tenho o palpite que deverá explodir relativamente rápido.

A única coisa que me preocupa – porque, lá está, me afecta directamente – é a qualidade dos dispositvos que andam para aí. O tablet que tenho comigo (Galaxy Tab2 10.1) não permitiu instalar a app (versão do Android, talvez?) e, mesmo que desse, a câmara é tão ranhosa que não tenho a certeza que lesse os QR Codes.

MEOCloud Linux GUI

Pronto, isto só é grande para meia dúzia de malucos. Aliás, o Celso Martinho salientou exactamente isso quando o anunciou. Mas, bolas, era algo que me estava mesmo a fazer muita falta...

MEOCloud “traz um amigo também”

Continuando com novidades MEOCloud, existe agora um programa de referrals que permite que se ganhe mais espaço (até um total de mais 16 GB) convidando amigos. Portanto, a 512 MB de cada vez, rapidamente se fica com uma cloud de 32 GB (66 GB para early adopters).


Mantenham-se atentos aos próximos posts. É já a seguir. Ou então não.

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Viagem
A partir desta foto de Proctor Archives – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Tento dormir. Nesta altura do ano, Vila Real transforma-se em Abafodopólis. A leve brisa, conseguida deixando quase tudo aberto, vai agitando as cortinas para fora da janela, como quem acena ao Verão que vai passando. Nalguma aldeia na encosta do Alvão, uma banda de baile esgota os últimos acordes de “Atira’tó mar e diz que t’empurrarem” e logo ataca corajosamente “Menina estás à janela”, versão dos UHF.

As festas destas aldeias não são nesta altura por acaso. Nem, aliás, as da própria cidade, cheia de animação em Agosto. Numa zona do país fortemente marcada pela sangria populacional, é agora que os filhos da terra voltam. Alguns, vêm do litoral, do norte ao sul; outros, mais, de muito longe. Enteados de Portugal, pontapeados pela vida daqui para fora, escorraçados como um cão que já ninguém quer. Que voltam.

Não falo da rapaziada que emigra nestes dias. Armados dos seus mestrados de Bolonha, com um conhecimento da língua e das culturas dos países de destino, mapas das novas cidades onde vão morar nos seus smartphones e contratos de trabalho que até incluem alojamento. Esses são uns mimados. Isto é emigração para meninos.

Os que voltam agora foram os que daqui saíram com a roupa que tinham no pêlo, toma lá uma broa que não hás-de comer antes de passar Burgos e põe-te a mexer antes que te arrependas. Emigrantes dos finais dos anos 1970 e 1980, com uma crise que fazia esta parecer uma arrelia (e cujo primeiro-ministro da altura, estranhamente, parece já ter esquecido), com um tecido empresarial que era uma anedota e uma agricultura de subsistência, sobretudo aqui no Norte, que dava os últimos gemidos antes do estertor final, eutanásia europeia servida a subsídios nos anos 1990.

E voltam.

Durante o dia, é quase um jogo matemático calcular a proporção de matrículas estrangeiras entre as portuguesas. França, Luxemburgo, Suiça. Uma ou outra do Reino Unido. O raríssimo corajoso que, sabe-se lá como, conseguiu trazer o jipe do Canadá. No shopping, à porta de restaurantes, a proporção é altíssima, lá para os 60% ou 70%. Até a normalmente muito sossegada rua sem saída do meu escritório se enche de carros estrangeiros por esta altura, à custa do conceituadíssimo restaurante Mateus.

E nós recebemo-los bem, não é? Não lhes chamamos avécs. Perdoamos os deslizes gramaticais e as expressões idiomáticas mal traduzidas dos seus países de acolhimento. Compreendemos, sem nos exasperarmos, as intermináveis ladaínhas de “lá na France isto não é nada assim”. Não criticamos a saloice que, afinal, é muito nossa (lá fora é que não a apanharam de certeza). Não zombamos dos gnomos de jardim e das iluminações das suas casas construídas pelas suas próprias mãos em vinte longos verões, com ajuda dos primos que ficaram na terra. É assim, não é? Pois é…

E não nos esquecemos de louvar a coragem que tiveram, o imenso sacrifício pessoal de deixar o lugar que os viu nascer, as pessoas que os viram crescer, com pouco mais que a proverbial mala de cartão da Linda de Suza. Não nos esquecemos de agradecer as remessas, as famosas remessas que tanto jeito dão ao país nestes tempos de crise, e que tanto jeito deram na década de 1980.

E nunca – nunca – nos esquecemos de lhes agradecer virem gastar os seus francos, primeiro, os euros, depois, no País que não tinha lugar para eles. É assim, não é?

E eles voltam todos os anos, como andorinhas ao contrário.

O mínimo que lhes podemos oferecer é Quim Barreiros, Emanuel e Tony Carreira, com um cheirinho de Íris, UHF e Xutos para os mais novos, alguns já nem portugueses, mas cujos pais bem tentam que não esqueçam as suas origens.

Como o País, em tempos, se esqueceu deles.

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LikeFriendsNo ano passado, por volta desta altura, lancei um pequeno brinquedo social, o LikeFriends. Depois do lançamento, nunca mais me preocupei com ele.

De alguns meses para cá, começaram-me a chegar queixas que não estaria a funcionar correctamente – não mostrava quaisquer likes em comum. Infelizmente, não tive vida pessoal nem profissional que me deixasse abordar este problema, para além da confirmação que, sim, estava partido.

Para quem não se interessa por questões técnicas, a única coisa que interessa é esta: está de novo a funcionar. Ide brincar. Quem estiver interessado, que fique por cá mais alguns minutos (e depois pode ir brincar).

Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Este post encerra uma série que começou aqui, passou por aqui e por aqui.


Finalmente, no ensino superior tive o ensinamento mais trágico-cómico (dependendo do lado da barricada) dado por um professor.

O professor Carlos Carreto, PhD, era um professor extremamente ocupado. Era orientador de projectos finais, estava envolvido no projecto robô-bombeiro, também naquelas carripanas que andam quase um milhar de quilómetros com um litro de gasolina e ainda dava aulas; a mim, de Computação Gráfica e Interfaces.

Adicionalmente, não tinha papas na língua e dizia o que pensava em qualquer altura. Em determinada conferência, integrada na semana aberta do instituto, ia havendo um motim entre os alunos quando ele defende que os alunos de Informática, pelo menos, deveriam ser obrigados a entregar todos os trabalhos em inglês.

Eu já trabalhava e tinha um arranjinho com a minha chefe de secção para ter sempre folga à quarta-feira, que era o dia em que tinha mais aulas, sobretudo práticas. Como tinha de ser extremamente focado e eficiente na gestão das minhas horas (porque tinha Sistemas Digitais sobreposto na última hora de CGI), estudava afincadamente a matéria da aula prática no dia antes; quando lá chegava, conseguia orientar o projecto nas minhas duas horas disponíveis (as aulas eram de três horas), normalmente até em menos.

Como disse, o professor era extremamente ocupado; como tal, para as aulas práticas, disponibilizava o enunciado na 'Net dois dias antes, no próprio dia cedia o esqueleto do projecto e ia tratar da vidinha dele. Quando acabássemos, era só entregar o projecto na plataforma online e sair.

Os meus colegas demoraram duas ou três aulas a descobrir que eu era barra naquilo, e que despachava os projectos num instante. A meio do semestre, 90% da turma simplesmente copiava o meu projecto – eu estava-me nas tintas.

Na semana antes do exame, uma alma preocupada pergunta ao professor se ia sair código no exame. Este responde, ipsis verbis: “Não sai código no exame. Código, fizeram-no nas aulas práticas, e já conta para a nota. No exame sai a matéria das aulas teóricas”. Ora, isso era um problema para mim, que eu até já estava à espera, visto que não assistia às aulas teóricas.

A matéria teórica de CGI é matemática daquela mesmo à bruta, álgebra matricial e outras coisas assustadoras do género, e eu não tinha a mínima hipótese de manter a mesma nota que esperava da componente prática, até porque o exame valia 60%.

De qualquer forma, fartei-me de queimar pestanas nessa semana. No dia do exame já me tinha conformado com a minha sina, e só queria tentar não ter algo muito abaixo de 8. O exame é distribuído; olho para ele e… código. Complete o código. Encontre o erro no código. Qual é o resultado deste código. Código por todo o lado.

O meu colega, tão preocupado na semana anterior, insurge-se: “Professor, tinha dito que não saía código!”. O professor dá a resposta mais lacónica e épica de sempre.

“Menti”.

A minha teoria é que o copianço generalizado não lhe tinha passado despercebido. Em vez de anular os trabalhos a toda a gente, o que levaria a carradas de burocracia, preferiu atacar o problema desta forma.

Lição a reter (em inglês, como este professor gostaria que fosse): life's unfair, deal with it.

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Secretárias escolares
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Este post faz parte de uma série, que começa aqui e cuja segunda parte está aqui.


Infelizmente, passei pelo que é hoje chamado 3º ciclo sem ter nenhum professor verdadeiramente marcante. Porém, fui largamente recompensado no secundário.

Tive vários grandes professores do 10º ao 12º. Quero falar em particular de um, mas não posso deixar passar outros sem algumas notas breves:

A professora Maria Manuel Candal (irmã de um dos mais épicos deputados da nossa 3º República, o Dr. Carlos “oh, António, você leu o papel” Candal), de Matemática, e que foi também nossa directora de turma. Senhora  de uma postura exigentíssima, tratava toda a gente por “pistótiras” e tinha uma pontaria inacreditável com bocados de giz, para a idade que tinha.

Quando quisemos organizar uma visita de estudo, disse-nos, e cito, “não vou com vocês nem até à Sé”. No final do 12º levou-nos a lanchar à pastelaria Diagonal; do outro lado da avenida, a Sé…

A professora Ana Paula, de Tecnologias de Informação. Outra professora com um grau de exigência absolutamente brutal e dona dum mau feitio a toda a prova. Nos dois anos que tivemos aulas com ela, acho que nunca a vi, sequer, sorrir. Anos mais tarde vim a saber que ela tinha sido fundamental na nossa defesa numa guerra que nos passou ao lado – havia professores apostados em que o Curso Tecnológico de Informática falhasse em toda a linha (movimento liderado pelo Orelha Ratada, de quem fizemos queixa, em bloco, ao Conselho Directivo, porque o homem faltava que era obra, mas os testes assumiam a matéria que ele nunca tinha dado).

O professor de Filosofia, do qual já perdi o nome – mas a quem chamávamos carinhosamente Führer, à pala do bigodinho – sabia que tinha ali uma frente perdida (sinceramente, que pedagogo é que acha que é boa ideia ter Filosofia no Curso Tecnológico de Informática?) mas nunca desistiu, mesmo sob boicote aberto. Aliás, o boicote foi de tal ordem, que teve mesmo de chumbar três alunos no 11º ano. Como era disciplina de dois anos apenas, a escola foi forçada a ter um exame nesse ano para três alunos. Lamento informar que eu era um desses três; sério, professor, lamento ter-lhe feito a vida negra nesses dois anos, mas estava na minha fase Schoppenhauer e… acontece.

Finalmente, o professor que mais marcou a minha aprendizagem. No 12º existia a única cadeira da nossa área que tinha exame nacional, Estruturação, Organização e Tratamento de Dados. Tínhamos ouvido uns zunzuns que íamos aprender Visual Basic, o que nos tinha deixado expectantes: finalmente, programação com GUI moderna, depois de dois anos de volta de Pascal e C

Na primeira aula, o professor Rui Lopes entra e declara, sem rodeios: “nunca trabalhei com Visual Basic, por isso, vamos todos aprender ao mesmo tempo”.

Pânico. Aquela gaita tinha exame nacional.

Lição número 1: menu Ajuda. Hoje em dia é um bocado patético (muitos programas, sobretudo na área mobile, já nem trazem), mas na altura era um recurso de valor incalculável. Pesquisar na Ajuda, sobretudo abrangendo todo um ambiente de desenvolvimento, incluindo a própria linguagem, tinha muito que se lhe dissesse, e o professor Rui Lopes tinha um vasto conjunto de truques para chegar rapidamente aos resultados pretendidos.

É preciso salientar que estávamos em ’97, e a parte mais movimentada da 'Net era o IRC. O Stack Overflow ainda estava a 10 anos de distância.

As aulas eram sempre bastante animadas; nem demos conta que, na realidade, estávamos a ter duas disciplinas numa só – a professora de Aplicações Informáticas, disciplina que fazia parelha com EOTD, andava a tirar o mestrado e aproveitava as nossas aulas para estudar; nós aproveitávamos para jogar Heretic em rede. No final do ano, a nossa turma teve notas excelentes no exame nacional.

Do professor Rui Lopes ficou-nos o fundamento da aprendizagem por conta própria. Nunca a sigla RTFM fez tanto sentido como naquela disciplina.

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Este post faz parte de uma série, que começa aqui.


No ciclo preparatório tive três grandes professores.

A professora Carla Costa, de Inglês, que mencionei de passagem aqui, com a qual vimos todas as aventuras do Big Muzzy. Mostrou-nos que aprender pode, e deve, ser divertido.

A professora de Ciências, que infelizmente já esqueci o nome, senhora de meia idade que carregava violentamente no perfume, sempre bem vestida e que tratava os alunos por você. Lembro-me particularmente duma aula em que nos forçou a apresentar provas de que a Terra é redonda (os mastros dos navios ao longe, a sombra nos eclipses lunares e por aí fora). Mostrou-nos que a aprendizagem é mais compreensão e raciocínio do que memorização.

O professor João Vieira, de Educação Física. Já não me lembro o que foi, mas certa vez aprontámos alguma que o desagradou profundamente. A maneira de o demonstrar foi rebentar connosco naquela hora. Não sei como o conseguia, mas não havia a mínima hipótese de fingirmos que nos esforçávamos, deu mesmo cabo de nós naquele dia.

Noutra altura, apresentou-nos um teste escrito, coisa inaudita em Educação Física. Deu a hipótese de ser com ou sem consulta e deitamo-nos no chão do ginásio a fazê-lo, dum lado com consulta, doutro lado sem. Eu e mais quatro ou cinco colegas achámos que aquilo cheirava a esturro (e, confesso, não tinha o manual da disciplina comigo) e fomos os únicos a fazê-lo sem consulta. Só no final o professor informou que os sem consulta seriam bonificados automaticamente em 10 pontos.

Com ele aprendi que, por mais subvalorizada que pareça uma tarefa, é para fazê-la sempre com brio e máxima dedicação e que o caminho mais difícil é, normalmente, mais recompensador.

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Secretárias escolares
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Durante o meu percurso escolar, tive uma dúzia de professores francamente maus (científica ou pedagogicamente, nalguns casos, em simultâneo), a esmagadora maioria era meh e uma dúzia deles muito bons.

Numa altura em que anda para aí toda a gente excitada com a luta dos professores, aproveito para escrever algo que andava há que tempos nos meus planos: uma série sobre os professores que me marcaram pela positiva. Isto não é sobre a luta dos professores – tenho uma opinião sobre isso, como, aliás,  qualquer pai devia ter, mas este post não é sobre isso e essa opinião ficará para outros locais.

É só um arremedo de homenagem aos melhores professores que tive.


A meio da primeira classe pedi ao meu pai para me trocar para a turma do professor Jaime. Quando um catraio de 7 anos pede para trocar de turma, podem ver o calibre da professora que eu tinha (eu disse que não ia falar sobre maus professores e logo a abrir já me desbronquei – em abono da senhora, ela não andava bem de saúde; ouvi dizer anos mais tarde que tinha metido baixa psiquiátrica até à reforma).

Professor da velha guarda, era, na altura, o director da escola (numa altura em que os directores de escola não tinham grilhetas burocráticas e ainda podiam dar aulas). Tinha uma mui respeitável cana-da-índia a que dava muito uso1, uma grossíssima régua de madeira a que dava ligeiramente menos e, em não tendo nada à mão, também não se coibia de distribuir uns tabefes…

… como daquela vez em que copiámos todos um problema de matemática pelo Joel que, quis o destino, estava errado, e correu-nos a todos ao estalo (menos a Dulcineia) antes de nos mandar para o recreio pensar sobre o assunto (e esfregar as bochechas).

Mas também vinha jogar futebol no intervalo. E ensinava-nos a fazer aviões de papel que voavam mais tempo.

Já não me lembro se nos ensinava bem ou mal (já foi há mais de um quarto de século, porra!), mas tenho uma vaga ideia que só chumbaram três ou quatro tipos na quarta classe (sim, a rapaziada chumbava mesmo na primária), por isso presumo que nos tivesse ensinado bem.

Mas o que ficou dessa altura foi respeito (não confundir com medo, que também lhe tínhamos um bocadito), rectidão e responsabilização por actos próprios.


1 Devido ao uso intensivo da cana-da-índia, volta e meia, estava partida, mas nunca passava muito tempo até aparecer outra. Certo dia, num desses interregnos sem cana, o nosso colega Garcia, cujos pais tinham uma quintinha, traz uma cana novinha em folha para oferecer ao professor. Está bom de ver que foi o primeiro a roer com ela nos costados, passado umas horas...

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Boa tarde,

O meu nome é ****** e sou uma web editor de argumentos sobre poker e jogos online.

Entrei em contato anteriormente mas não obtive resposta.

Tive a oportunidade de visitar o vosso site e gostaria de saber se poderiam estar interessados numa colaboração editorial.

Agradecendo antecipadamente a vossa atenção, apresento os meus melhores cumprimentos,

******

E porque será que não obteve resposta?

Porque, como editora de conteúdos, deveria dar mais atenção aos conteúdos. Eu falo em Poker no DreamsInCode exactamente uma vez (aqui), e é, claramente, de raspão. Não falo em jogos online de todo.

Porque sou, como é trivial de verificar, apenas uma pessoa, pelo que é absurdo - e mais uma vez denota que o trabalho de casa não foi feito - falar em "vosso site", "poderiam estar interessados" e "vossa atenção".

Porque fala numa "colaboração editorial" e não diz nem com quem, nem em que moldes. Não há absolutamente nada no seu e-mail que identifique em nome de quem se apresenta, não dá um único exemplo dessas tais colaborações editoriais, nem quais as vantagens das mesmas.

Porque, enfim, eu tenho mais que fazer do que responder ao que tem todo o aspecto de ser spam (tanto no sentido tecnológico do termo, como na acepção de fiambre enlatado, desenxabido e gorduroso). Excepto, claro está, quando a insistência já pede uma abordagem mais pedagógica.

Como esta.

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Aqui há dias, por ocasião de ter atingido 500.000 subscritores, C. G. P. Grey colocou um vídeo com respostas a várias perguntas que lhe foram colocadas. Ao minuto 1:24, surge (traduzido):

O que é que achas que devia estar no currículo escolar mas não está? - Jamaal, Arizona

Programação informática. Eu fiquei meio chocado e horrorizado quando comecei a dar aulas no Reino Unido ao descobrir que não existia nenhum ensino real de programação informática.

Claro, existe um determinado número de aulas num dia, e todos querem que a sua disciplina de estimação seja ensinada nas escolas, pelo que a pergunta igualmente importante é o que deitar fora para arranjar espaço para a programação informática...

Interlúdio: o resto do vídeo vale bem a pena, assim como qualquer um dos vídeos dele. Subscrevam o canal (link no final).

Eu não podia concordar mais com esta opinião; mau seria, sendo eu programador. Precisamente por isso já ando a ensinar programação, usando Python, à minha filha mais velha. Não vou entrar em grandes considerações sobre porque é que a programação é importante, ou porque é que escolhi Python – talvez o faça um destes dias; duma forma resumida, programar é um exercício de lógica, resolução de problemas e raciocínio científico.

A parte problemática vem depois:

... e, sem a mais pequena hesitação, eu livrar-me-ia das aulas de língua estrangeira – afinal, a programação está-nos a aproximar cada vez mais de um tradutor universal.

Pois, fácil de dizer para um anglófono...

Para tirar já isto do caminho, ainda estamos a algumas décadas de um tradutor universal. Olhando para as dez línguas mais faladas (por nativos e não-nativos), saltam logo à vista alguns problemas bicudos, logo a começar pela primeira delas, o mandarim, e apanhando ali o hindi em quarto. Considerando até que nos focávamos apenas na lingua franca da ciência e da Internet, o inglês, os tradutores automáticos até para alemão – afinal, parte da mesma sub-família que o inglês – apresentam dificuldades. Ainda não estamos lá.

Originalmente tinha aqui uma tangente sobre a prevalência do inglês sobre o mandarim, mas, como é habitual nas minhas tangentes, ficou grande demais. Foi promovida a post de pleno direito, aqui.

mjamado's YouTube subscriptionsMas para além de ser a lingua franca da tecnologia, ou talvez por isso mesmo, os conteúdos anglófonos também são os mais abundantes e, embora seja uma generalização, perigosa como todas as generalizações, os de melhor qualidade. Como se pode ver pelas minhas subscrições no YouTube, aqui ao lado (links e descrições no fim), sou um grande apologista do vídeo enquanto ferramenta de aprendizagem para micro-temas, ou para pinceladas grossas sobre uma dada temática.

Para ser totalmente honesto, continuo a preferir livros para a minha área profissional e para aprofundar determinados temas. Também na vertente recreativa, primeiro o livro, depois o filme ou a série.

Eu não tenho problema nenhum em ver estes (e outros) conteúdos em inglês. Felizmente, tive sempre excelentes professores de inglês – um grande beijo para a minha professora de Inglês do ciclo, a professora Carla Costa – e a minha área profissional (e os estudos até lá) forçam-me a ler, escrever e "pensar" em inglês durante grande parte do dia.

O problema coloca-se quando quero partilhar alguma coisa com a minha esposa, que teve uma educação de língua estrangeira absolutamente pavorosa, ou com a minha filha mais velha, que está agora a começar a aprender em regime de enriquecimento curricular – que nem sequer é obrigatório, o que acentua ainda mais as diferenças educativas.

Neste momento, os recursos existente na 'Net são imensos; dá vontade de dizer "no meu tempo não havia nada disto". A esmagadora maioria está em inglês. Os conteúdos portugueses são poucos, e os que existem, de fraca qualidade (ai, estas generalizações).

Para voltar à sugestão de C. G. P. Grey, retirar o ensino da língua estrangeira para ensinar programação, é exequível em países não anglófonos? Óbvia e dolorosamente, não.

Portanto, pergunta ainda mais importante: as crianças de países anglófonos, partindo do princípio que os pedagogos desses países não andem a dormir durante muito mais tempo, terão uma vantagem educativa e, por extensão, competitiva, em relação às crianças do resto do mundo? O que é que podemos fazer para anular essa vantagem, dado que não podemos prescindir do ensino do Inglês? Começá-lo mais cedo, para que as crianças atinjam a fluência também mais cedo? Quão mais cedo? Dar-lhe uma maior carga horária, nomeadamente em regime obrigatório, ao contrário do que é feito actualmente? Ou reduzir carga horária noutras matérias? Quais?

A minha preocupação não é tanto com as minhas filhas, mas sim com a educação em geral. Não faço segredo sobre o meu sistema de educativo preferido: a tutoria, focalizada nos interesses da criança, desde o mais cedo possível. Possível por padrões actuais? Nem por sombras. Não vejo solução. Não há alguém a quem claramente apontar o dedo ou exigir medidas, sobretudo por não ter ideia absolutamente nenhuma de que medidas seriam necessárias.

É um enigma. Resolvê-lo poderá ser essencial para prepararmos competitivamente a próxima geração para os desafios do futuro.

As minhas subscrições no YouTube

Por ordem alfabética, para não ferir susceptibilidades...  ;)

  • C. G. P. Grey – Micro-temas explicados em pouco tempo, normalmente com recurso a animações e infografias animadas. Quase todos os vídeos têm um creeper do Minecraft, a diversão de os procurar é um bónus adicional. Generalista;
  • Crash Course! – Na realidade, este canal contém seis séries diferentes: Biologia, História Mundial, Literatura Inglesa, Ecologia, História dos EUA e Química. Confesso que ainda só vi a série sobre História Mundial, mas a qualidade deve ser transversal. Apresentado pelos irmãos Green, Hank e John, que também mantêm o VlogBrothers e não só. Aspecto e conteúdo muito profissional;
  • MinutePhysics e MinuteEarth – Criados por Henry Reich, animações desenhadas à mão sobre física e o nosso planeta Terra, respectivamente. Este último começou agora em Março (à data que escrevo isto, ainda só tem um vídeo). Dica: nenhum vídeo tem, na realidade, apenas um minuto;
  • Numberphile – Como o próprio nome indica, um canal sobre números. Os convidados são sempre pessoas com imenso entusiasmo – e conhecimento, claro. O criador, Brady Haran, tem outros canais interessantíssimos;
  • SciShow – Apresentado por Hank Green (metade dos VlogBrothers), sobre, adivinharam: ciência. Normalmente, micro-temas, mas alguns são explicações para pessoas "normais" de temas mais vastos;
  • SmarterEveryDay – Conteúdos com o que é normalmente chamado de "ciência prática". Destin, o criador, tem um entusiasmo muito contagiante;
  • Vsauce – Canal sobre tudo e um par de botas, mas com alguma incidência em ciência e tecnologia. Teve alguma exposição memética recentemente com o vídeo The Science of the Friend Zone.

Há muitos outros, para todo o tipo de gostos. Inclusivamente, há outros que eu gostava de seguir, mas, hey, o dia ainda tem uma quantidade limitada de horas...

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Este post é uma tangente deste.

Porque é que é o inglês a lingua franca da ciência e tecnologia, e não o mandarim?

Soldados Americano, Chinês e Inglês com as respectivas bandeiras
Foto por: Governo do Reino Unido, Outubro de 1943 – Domínio Público

Quando consideramos a quantidade de falantes nativos, temos (em estimativas de 2010) cerca de 955 milhões de nativos em mandarim, basicamente na China (Taiwan e Malásia contribuem com muito pouco, Singapura ainda com menos), e cerca de 359 milhões em inglês, espalhados por Reino Unido, EUA, África do Sul, Austrália, Canadá e uma série de outros.

Esta dispersão já poderia ser justificativa, mas a verdade esconde-se na quantidade combinada de falantes nativos e não-nativos: 1150 milhões para o mandarim, contra 1000 milhões para o inglês. A diferença esbate-se, a dispersão geográfica joga a favor do inglês e conclui-se, de caras, que a esmagadora maioria do total de falantes de mandarim está enfiada no mesmo sítio: a China. 

Mas falta ainda explicar porque é que o inglês se espalhou tanto entre não-nativos (quase duas vezes mais não-nativos do que nativos), ao contrário do mandarim, o que é fácil: o inglês é a língua nativa dos países onde começou a revolução industrial (o Reino Unido) e a tecnológica (os EUA); o mandarim é a língua nativa duma ditadura comunista, de costas voltadas para o ocidente, cuja única tentativa de apanhar o comboio da revolução industrial, com mais de 100 anos de atraso (o Grande Salto em Frente de Mao Tse-tung) redundou num falhanço de proporções épicas.

Os países que efectivamente quiseram acompanhar as revoluções industrial e tecnológica tiveram que entender o know how que lhes era transmitido. E "know how", assim mesmo em inglês, foi intencional.

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