Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Este post faz parte de uma série, que começa aqui.


No ciclo preparatório tive três grandes professores.

A professora Carla Costa, de Inglês, que mencionei de passagem aqui, com a qual vimos todas as aventuras do Big Muzzy. Mostrou-nos que aprender pode, e deve, ser divertido.

A professora de Ciências, que infelizmente já esqueci o nome, senhora de meia idade que carregava violentamente no perfume, sempre bem vestida e que tratava os alunos por você. Lembro-me particularmente duma aula em que nos forçou a apresentar provas de que a Terra é redonda (os mastros dos navios ao longe, a sombra nos eclipses lunares e por aí fora). Mostrou-nos que a aprendizagem é mais compreensão e raciocínio do que memorização.

O professor João Vieira, de Educação Física. Já não me lembro o que foi, mas certa vez aprontámos alguma que o desagradou profundamente. A maneira de o demonstrar foi rebentar connosco naquela hora. Não sei como o conseguia, mas não havia a mínima hipótese de fingirmos que nos esforçávamos, deu mesmo cabo de nós naquele dia.

Noutra altura, apresentou-nos um teste escrito, coisa inaudita em Educação Física. Deu a hipótese de ser com ou sem consulta e deitamo-nos no chão do ginásio a fazê-lo, dum lado com consulta, doutro lado sem. Eu e mais quatro ou cinco colegas achámos que aquilo cheirava a esturro (e, confesso, não tinha o manual da disciplina comigo) e fomos os únicos a fazê-lo sem consulta. Só no final o professor informou que os sem consulta seriam bonificados automaticamente em 10 pontos.

Com ele aprendi que, por mais subvalorizada que pareça uma tarefa, é para fazê-la sempre com brio e máxima dedicação e que o caminho mais difícil é, normalmente, mais recompensador.

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Secretárias escolares
A partir desta foto de DQmountaingirl – Creative Commons BY-NC-SA 2.0

Durante o meu percurso escolar, tive uma dúzia de professores francamente maus (científica ou pedagogicamente, nalguns casos, em simultâneo), a esmagadora maioria era meh e uma dúzia deles muito bons.

Numa altura em que anda para aí toda a gente excitada com a luta dos professores, aproveito para escrever algo que andava há que tempos nos meus planos: uma série sobre os professores que me marcaram pela positiva. Isto não é sobre a luta dos professores – tenho uma opinião sobre isso, como, aliás,  qualquer pai devia ter, mas este post não é sobre isso e essa opinião ficará para outros locais.

É só um arremedo de homenagem aos melhores professores que tive.


A meio da primeira classe pedi ao meu pai para me trocar para a turma do professor Jaime. Quando um catraio de 7 anos pede para trocar de turma, podem ver o calibre da professora que eu tinha (eu disse que não ia falar sobre maus professores e logo a abrir já me desbronquei – em abono da senhora, ela não andava bem de saúde; ouvi dizer anos mais tarde que tinha metido baixa psiquiátrica até à reforma).

Professor da velha guarda, era, na altura, o director da escola (numa altura em que os directores de escola não tinham grilhetas burocráticas e ainda podiam dar aulas). Tinha uma mui respeitável cana-da-índia a que dava muito uso1, uma grossíssima régua de madeira a que dava ligeiramente menos e, em não tendo nada à mão, também não se coibia de distribuir uns tabefes…

… como daquela vez em que copiámos todos um problema de matemática pelo Joel que, quis o destino, estava errado, e correu-nos a todos ao estalo (menos a Dulcineia) antes de nos mandar para o recreio pensar sobre o assunto (e esfregar as bochechas).

Mas também vinha jogar futebol no intervalo. E ensinava-nos a fazer aviões de papel que voavam mais tempo.

Já não me lembro se nos ensinava bem ou mal (já foi há mais de um quarto de século, porra!), mas tenho uma vaga ideia que só chumbaram três ou quatro tipos na quarta classe (sim, a rapaziada chumbava mesmo na primária), por isso presumo que nos tivesse ensinado bem.

Mas o que ficou dessa altura foi respeito (não confundir com medo, que também lhe tínhamos um bocadito), rectidão e responsabilização por actos próprios.


1 Devido ao uso intensivo da cana-da-índia, volta e meia, estava partida, mas nunca passava muito tempo até aparecer outra. Certo dia, num desses interregnos sem cana, o nosso colega Garcia, cujos pais tinham uma quintinha, traz uma cana novinha em folha para oferecer ao professor. Está bom de ver que foi o primeiro a roer com ela nos costados, passado umas horas...

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Boa tarde,

O meu nome é ****** e sou uma web editor de argumentos sobre poker e jogos online.

Entrei em contato anteriormente mas não obtive resposta.

Tive a oportunidade de visitar o vosso site e gostaria de saber se poderiam estar interessados numa colaboração editorial.

Agradecendo antecipadamente a vossa atenção, apresento os meus melhores cumprimentos,

******

E porque será que não obteve resposta?

Porque, como editora de conteúdos, deveria dar mais atenção aos conteúdos. Eu falo em Poker no DreamsInCode exactamente uma vez (aqui), e é, claramente, de raspão. Não falo em jogos online de todo.

Porque sou, como é trivial de verificar, apenas uma pessoa, pelo que é absurdo - e mais uma vez denota que o trabalho de casa não foi feito - falar em "vosso site", "poderiam estar interessados" e "vossa atenção".

Porque fala numa "colaboração editorial" e não diz nem com quem, nem em que moldes. Não há absolutamente nada no seu e-mail que identifique em nome de quem se apresenta, não dá um único exemplo dessas tais colaborações editoriais, nem quais as vantagens das mesmas.

Porque, enfim, eu tenho mais que fazer do que responder ao que tem todo o aspecto de ser spam (tanto no sentido tecnológico do termo, como na acepção de fiambre enlatado, desenxabido e gorduroso). Excepto, claro está, quando a insistência já pede uma abordagem mais pedagógica.

Como esta.

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Aqui há dias, por ocasião de ter atingido 500.000 subscritores, C. G. P. Grey colocou um vídeo com respostas a várias perguntas que lhe foram colocadas. Ao minuto 1:24, surge (traduzido):

O que é que achas que devia estar no currículo escolar mas não está? - Jamaal, Arizona

Programação informática. Eu fiquei meio chocado e horrorizado quando comecei a dar aulas no Reino Unido ao descobrir que não existia nenhum ensino real de programação informática.

Claro, existe um determinado número de aulas num dia, e todos querem que a sua disciplina de estimação seja ensinada nas escolas, pelo que a pergunta igualmente importante é o que deitar fora para arranjar espaço para a programação informática...

Interlúdio: o resto do vídeo vale bem a pena, assim como qualquer um dos vídeos dele. Subscrevam o canal (link no final).

Eu não podia concordar mais com esta opinião; mau seria, sendo eu programador. Precisamente por isso já ando a ensinar programação, usando Python, à minha filha mais velha. Não vou entrar em grandes considerações sobre porque é que a programação é importante, ou porque é que escolhi Python – talvez o faça um destes dias; duma forma resumida, programar é um exercício de lógica, resolução de problemas e raciocínio científico.

A parte problemática vem depois:

... e, sem a mais pequena hesitação, eu livrar-me-ia das aulas de língua estrangeira – afinal, a programação está-nos a aproximar cada vez mais de um tradutor universal.

Pois, fácil de dizer para um anglófono...

Para tirar já isto do caminho, ainda estamos a algumas décadas de um tradutor universal. Olhando para as dez línguas mais faladas (por nativos e não-nativos), saltam logo à vista alguns problemas bicudos, logo a começar pela primeira delas, o mandarim, e apanhando ali o hindi em quarto. Considerando até que nos focávamos apenas na lingua franca da ciência e da Internet, o inglês, os tradutores automáticos até para alemão – afinal, parte da mesma sub-família que o inglês – apresentam dificuldades. Ainda não estamos lá.

Originalmente tinha aqui uma tangente sobre a prevalência do inglês sobre o mandarim, mas, como é habitual nas minhas tangentes, ficou grande demais. Foi promovida a post de pleno direito, aqui.

mjamado's YouTube subscriptionsMas para além de ser a lingua franca da tecnologia, ou talvez por isso mesmo, os conteúdos anglófonos também são os mais abundantes e, embora seja uma generalização, perigosa como todas as generalizações, os de melhor qualidade. Como se pode ver pelas minhas subscrições no YouTube, aqui ao lado (links e descrições no fim), sou um grande apologista do vídeo enquanto ferramenta de aprendizagem para micro-temas, ou para pinceladas grossas sobre uma dada temática.

Para ser totalmente honesto, continuo a preferir livros para a minha área profissional e para aprofundar determinados temas. Também na vertente recreativa, primeiro o livro, depois o filme ou a série.

Eu não tenho problema nenhum em ver estes (e outros) conteúdos em inglês. Felizmente, tive sempre excelentes professores de inglês – um grande beijo para a minha professora de Inglês do ciclo, a professora Carla Costa – e a minha área profissional (e os estudos até lá) forçam-me a ler, escrever e "pensar" em inglês durante grande parte do dia.

O problema coloca-se quando quero partilhar alguma coisa com a minha esposa, que teve uma educação de língua estrangeira absolutamente pavorosa, ou com a minha filha mais velha, que está agora a começar a aprender em regime de enriquecimento curricular – que nem sequer é obrigatório, o que acentua ainda mais as diferenças educativas.

Neste momento, os recursos existente na 'Net são imensos; dá vontade de dizer "no meu tempo não havia nada disto". A esmagadora maioria está em inglês. Os conteúdos portugueses são poucos, e os que existem, de fraca qualidade (ai, estas generalizações).

Para voltar à sugestão de C. G. P. Grey, retirar o ensino da língua estrangeira para ensinar programação, é exequível em países não anglófonos? Óbvia e dolorosamente, não.

Portanto, pergunta ainda mais importante: as crianças de países anglófonos, partindo do princípio que os pedagogos desses países não andem a dormir durante muito mais tempo, terão uma vantagem educativa e, por extensão, competitiva, em relação às crianças do resto do mundo? O que é que podemos fazer para anular essa vantagem, dado que não podemos prescindir do ensino do Inglês? Começá-lo mais cedo, para que as crianças atinjam a fluência também mais cedo? Quão mais cedo? Dar-lhe uma maior carga horária, nomeadamente em regime obrigatório, ao contrário do que é feito actualmente? Ou reduzir carga horária noutras matérias? Quais?

A minha preocupação não é tanto com as minhas filhas, mas sim com a educação em geral. Não faço segredo sobre o meu sistema de educativo preferido: a tutoria, focalizada nos interesses da criança, desde o mais cedo possível. Possível por padrões actuais? Nem por sombras. Não vejo solução. Não há alguém a quem claramente apontar o dedo ou exigir medidas, sobretudo por não ter ideia absolutamente nenhuma de que medidas seriam necessárias.

É um enigma. Resolvê-lo poderá ser essencial para prepararmos competitivamente a próxima geração para os desafios do futuro.

As minhas subscrições no YouTube

Por ordem alfabética, para não ferir susceptibilidades...  ;)

  • C. G. P. Grey – Micro-temas explicados em pouco tempo, normalmente com recurso a animações e infografias animadas. Quase todos os vídeos têm um creeper do Minecraft, a diversão de os procurar é um bónus adicional. Generalista;
  • Crash Course! – Na realidade, este canal contém seis séries diferentes: Biologia, História Mundial, Literatura Inglesa, Ecologia, História dos EUA e Química. Confesso que ainda só vi a série sobre História Mundial, mas a qualidade deve ser transversal. Apresentado pelos irmãos Green, Hank e John, que também mantêm o VlogBrothers e não só. Aspecto e conteúdo muito profissional;
  • MinutePhysics e MinuteEarth – Criados por Henry Reich, animações desenhadas à mão sobre física e o nosso planeta Terra, respectivamente. Este último começou agora em Março (à data que escrevo isto, ainda só tem um vídeo). Dica: nenhum vídeo tem, na realidade, apenas um minuto;
  • Numberphile – Como o próprio nome indica, um canal sobre números. Os convidados são sempre pessoas com imenso entusiasmo – e conhecimento, claro. O criador, Brady Haran, tem outros canais interessantíssimos;
  • SciShow – Apresentado por Hank Green (metade dos VlogBrothers), sobre, adivinharam: ciência. Normalmente, micro-temas, mas alguns são explicações para pessoas "normais" de temas mais vastos;
  • SmarterEveryDay – Conteúdos com o que é normalmente chamado de "ciência prática". Destin, o criador, tem um entusiasmo muito contagiante;
  • Vsauce – Canal sobre tudo e um par de botas, mas com alguma incidência em ciência e tecnologia. Teve alguma exposição memética recentemente com o vídeo The Science of the Friend Zone.

Há muitos outros, para todo o tipo de gostos. Inclusivamente, há outros que eu gostava de seguir, mas, hey, o dia ainda tem uma quantidade limitada de horas...

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Este post é uma tangente deste.

Porque é que é o inglês a lingua franca da ciência e tecnologia, e não o mandarim?

Soldados Americano, Chinês e Inglês com as respectivas bandeiras
Foto por: Governo do Reino Unido, Outubro de 1943 – Domínio Público

Quando consideramos a quantidade de falantes nativos, temos (em estimativas de 2010) cerca de 955 milhões de nativos em mandarim, basicamente na China (Taiwan e Malásia contribuem com muito pouco, Singapura ainda com menos), e cerca de 359 milhões em inglês, espalhados por Reino Unido, EUA, África do Sul, Austrália, Canadá e uma série de outros.

Esta dispersão já poderia ser justificativa, mas a verdade esconde-se na quantidade combinada de falantes nativos e não-nativos: 1150 milhões para o mandarim, contra 1000 milhões para o inglês. A diferença esbate-se, a dispersão geográfica joga a favor do inglês e conclui-se, de caras, que a esmagadora maioria do total de falantes de mandarim está enfiada no mesmo sítio: a China. 

Mas falta ainda explicar porque é que o inglês se espalhou tanto entre não-nativos (quase duas vezes mais não-nativos do que nativos), ao contrário do mandarim, o que é fácil: o inglês é a língua nativa dos países onde começou a revolução industrial (o Reino Unido) e a tecnológica (os EUA); o mandarim é a língua nativa duma ditadura comunista, de costas voltadas para o ocidente, cuja única tentativa de apanhar o comboio da revolução industrial, com mais de 100 anos de atraso (o Grande Salto em Frente de Mao Tse-tung) redundou num falhanço de proporções épicas.

Os países que efectivamente quiseram acompanhar as revoluções industrial e tecnológica tiveram que entender o know how que lhes era transmitido. E "know how", assim mesmo em inglês, foi intencional.

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Codebits VI
Como já é  habitual, a semana a seguir ao Codebits é bastante caótica; este ano, por motivos profissionais, essa semana transformou-se rapidamente em quase três meses. Durante esse tempo, este post foi sendo escrito em quatro dispositivos, por três zonas do país, e esteve quase para não ser publicado. Como já estava quase pronto, cá está. So, back to the  point...

Quando acordei, já o recinto fervilhava com movimento, e as primeiras talks estavam a arrancar. Dei a primeira ronda como perdida e fui tentar tirar o aspecto de zombie mal nutrido – sem grande sucesso, diga-se de passagem.

Instalei-me (isto é, deixei-me cair em cima de um puff) para ver a Tools, tools, tools, de Paulo Gaspar. Tendo como tema as diferentes ferramentas necessárias à programação, com especial enfoque no webdev, Paulo Gaspar passou por quase tudo o que era humanamente possível; só fiquei ligeiramente desapontado com a não inclusão do Netbeans – posteriormente, foi-me justificado que nem sequer sabia que o Netbeans suportava outras coisas que não Java.

Esta talk foi interrompida, perto do final, por dois eventos mesmo à Codebits: primeiro, uma mais que merecida homenagem ao Celso Martinho, pai do Codebits, co-fundador do Sapo e all around geek. Tirando a imagem um bocadinho creepy de centenas de máscaras Celsianas ao som do por vezes hipnótico, mas sempre irritante, Nyan Cat, poucas pessoas em Portugal conseguiriam ter a admiração quase consensual duma comunidade da forma como Celso Martinho consegue.

Logo de seguida, no contexto da caça aos badges, o desafio I'll do anything for a badge, que consistia em tomar o palco principal e imitar a coreografia do Gangnam Style. Como a participação foi massiva (porquê , pergunto eu), foi necessário repetir o evento. Isto é, depois do Nyan Cat, duas vezes Gangnam Style. Às vezes ainda acordo com suores frios a pensar nisto...

Depois de Gangnam Style ter atingido mil milhões de visualizações no Youtube, passo a oportunidade de o linkar novamente.

A seguir ao almoço passei mais uma vez pelas equipas que vinha a acompanhar, dar aquele último impulso moral, e cirandei por várias outras equipas. Mais do que a inovação tecnológica, ou o brilhantismo das apresentações, há uma energia no ar, um misto impalpável de excitação, receio e alguma sobranceria fingida, protecção de última linha contra uma auto-estima destruída pelo cansaço e pelo génio que se encontra a cada metro percorrido.

As apresentações decorreram de forma fluida, o sistema de votação não deu o tilt como no ano passado, e até a collective intelligence do público se comportou bastante melhor, votando bastante em projectos com efectivo interesse prático. Por exemplo, o projecto mais votado pelo público, reconhecimento automático de linguagem gestual, é tudo o que um projecto Codebits (e, em última análise, qualquer projecto de startup) deve ser: aliar o poder da tecnologia à resolução de um problema real.

No final das apresentações, infelizmente, tive que iniciar a minha viagem de regresso. Parece que, a cada ano, conforme vou aumentando a hora de regresso, o evento arranja maneira de acabar mais tarde. Já não pude assistir à divulgação dos vencedores, entrega dos prémios e discurso de encerramento de Zeinal Brava.

Fica, como sempre, a sensação de maravilhamento com o que é possível atingir quando existe a motivação correcta – mesmo quando essa motivação está longe de ser monetária. Algo a aprender pelas empresas portuguesas (e pelos sindicatos, já agora).

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Codebits VI

Inexplicavelmente, ontem esqueci-me de assinalar a The Art of Readable Code, de Pedro Morais, uma talk que devia ser obrigatória em qualquer nível de ensino relacionado com a programação. Muito boa talk.

Depois de uma noite mal dormida (como sempre no Codebits), arranquei logo de manhã para Fast relational web site construction with PHP, de Nelson Gomes. As minhas aspirações foram ligeiramente defraudadas, em parte pelo cansaço, em parte por ter extrapolado mais da descrição do que o que lá estava. Como dizem os namorados americanos nos filmes, it's not you, it's me.

O foco da talk foi quase em exclusivo no motor ORM Doctrine e no motor de templating Smarty, quando eu tinha esperado que fosse mais sobre motores de ORM e templating em geral e depois algumas considerações sobre estas em particular. Não havia rigorosamente nada na descrição que levasse a esta minha conclusão (acabei de verificar novamente) e não sei de onde a fui tirar. Não tenho grande interesse no Doctrine (usamos a nossa própria framework no trabalho) e conheço Smarty de trás para a frente (este site, por exemplo, usa-o). A talk é boa para iniciantes, ou para quem esteja no processo de escolher motores, mas não é o meu caso. O cansaço também não ajudou – fechei os olhos várias vezes.

À tarde, a Move fast & break things, do inenarrável Miguel Gonçalves, era imperdível. Como sempre, o dinanismo é esfuziantemente contagiante, o discurso motivacional é o correcto mas... a crowd é errada. Ele apanhou algum calor na parte de perguntas e respostas, porque esta rapaziada já é a que tem o mindset correcto (não estaríamos cá se não fosse esse o caso). Algumas pessoas levaram a mal o trabalhar mais, trabalhar melhor, o que é compreensível quando estamos a falar de pessoas que já estão em frente a um computador mais de 12 horas por dia. A esmagadora maioria percebeu que o problema não está em nós, e que o principal nem é a quantidade do trabalho, mas sim a motivação com que o fazes; não obstante, o discurso poderia ter sido ligeiramente adaptado, tendo em atenção as características muito específicas da audiência. No entanto, não deixa de ser sempre uma talk imperdível. E foi.

Depois de uma talk menos conseguida no ano passado, Diogo Antunes volta a estar em grande forma com It works on your computer but does it render fast enough. Como alguém que passou as últimas duas semanas a optimizar o rendering de um projecto profissional, estava especialmente ansioso por mais um truque ou outro que pudesse aplicar. Infelizmente, acabei por aprender que já estou a usar todos os truques aplicáveis, mas foi muito interessante ver explicado decentemente aquilo que tive que aprender, às vezes de forma incompleta, nas últimas semanas.

Com especial destaque para as operações de reflow e redraw dos motores de rendering dos browsers, esta talk é especialmente informativa e dada de forma quase irrepreensível (nota-se que o inglês não é a língua nativa).

No final desta talk ainda tive a oportunidade de debater os meus dilemas com o tal projecto profissional com o Diogo e com o sempre disponível André Luís, que só confirmaram o que eu já temia: há um limite para a optimização que um webdev pode fazer; há certos dispositivos que não estão preparados para certas cargas, ponto.

A fechar a tarde, The Yin-Yang of web authentication, de Nuno Loureiro, parte da equipa de segurança do Sapo, e João Poupino, da nova CloudPT. Alguns dos vectores de ataque foram novos para mim (os baseados em timings são especialmente assustadores) e alguns dos métodos de defesa também. Sem dúvida uma das talks com melhor taxa de material aprendido por minuto... ;)

Por exemplo, ao fim destes anos todos, aprendi que CAPTCHA, na realidade, é um acrónimo para Completely Automated Public Turing testes to tell Computers and Humans Apart. Wow.

O plano nocturno foi o sempre hilariante The Amazing Codebits Quiz Show. Eu não sei onde raio o Quiz Master vai buscar certas perguntas (e certas respostas) que não lembram ao demónio. Quanto é um ångström? A sério? Qual é o país com a maior bebida standard? Os países têm uma bebida standard?

Durante grande parte do dia e da noite, fui seguindo alguns projectos de malta conhecida e ajudando no que podia.

Um grupo de estudantes do Técnico resolveram fazer uma aplicação Android que funcionasse como um shout georeferenciado, o que é uma ideia interessante. Pormenor: nenhum deles sabia programar Android. Fui passando várias vezes por lá, a orientá-los pelos vários pitfalls que o Android SDK tem (a última foi aquele problema irritante de não se poder instalar a mesma app quando se muda o namespace).

O KTachyon, que é um programador competentíssimo e de certeza que não precisa da minha ajuda, está com uns colegas a fazer uma aplicação que junte os vários serviços de alojamento de ficheiros, Dropbox, Google Drive e agora o CloudPT. A meio da madrugada, a API do CloudPT estava a dar-lhe um bocado de luta e estivemos a debater durante um bocado o que poderia estar a correr mal. Eu fiquei sem saber muito bem, mas aparentemente ele conseguiu desbloquear a coisa.

O Killercode, que tem sempre ideias muito maradas envolvendo hardware (no ano passado era controlar a MeoBox com o Kinect) anda ali de volta de um Arduino controlado via bluetooth por um Android. Eu disse que era marado.

Passei algumas horas da madrugada com o KTachyon e alguns amigos a discutir um monte de coisas, desde o ainda aftershock da talk do Miguel Gonçalves, o estado do nosso país, o estado da nossa educação (entre os participantes, um professor de biologia, que, a meio da carreira, decide que afinal quer ser é programador - awsome!), dificuldades e oportunidades na nossa área, old school gaming e se os porcos têm ou não asas.

Estamos no último dia. Hoje é que é a doer para muitos participantes. Boa sorte a todos!

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Codebits VI

RaspberryPiUltimakerDepois de mais um ano de preparação, um excruciante processo de selecção e, para muitos de nós, uma viagem mais ou menos longa, começou um novo Codebits. Não sei como é que conseguem, mas o geek level aumenta sempre. Se no ano passado a parada foi subida com a presença da LEGO, este ano conseguiram trazer não só uma presença oficial das impressoras 3D, através de Erik de Bruijn, da Ultimaker, como também do RaspberryPi, através de Rob Bishop, da RaspberryPi Foundation.

Mas começemos pelo princípio.

A keynote de abertura foi conduzida pelo Celso Martinho, como é habitual, cabendo a Abílio Martins, administrador da PT, a maior fatia, face à indisponibilidade de Zeinal Bava. Vários serviços apresentados (Meo Kanal no iOS – Android, para variar, é mato – API Meo Kanal, novas inovações dos Sapo Labs, mais Sapo Services), mas com uma recepção relativamente morna, no máximo.

CloudPT

Coube à Jonas dar a notícia que obteve a maior reacção da plateia: depois de apresentado o serviço CloudPT, com a disponibilização imediata do serviço para os participantes do Codebits – que, afinal, até nem era segredo desde há alguns dias – revela que, como early adopters do serviço, os 16 GB oferecidos pela plataforma seriam estendidos, para sempre e sem contrapartidas, para 50 GB. A reacção foi estrondosa. A aceitação do serviço, pelo que tenho visto por aqui e no Twitter, tem sido muito positiva. Infelizmente, a integração com Linux restringe-se ao Ubuntu, para já, e eu fiquei um bocado no gelo com o meu Kubuntu (teoricamente, podia puxar as 50 mil dependências do Gnome mas... prefiro não o fazer). Ainda não tive tempo para usar a interface web, que tem muito bom aspecto, por sinal.

A keynote derrapou no horário violentamente – já tinha começado atrasada, e só piorou – e as talks começaram de forma mais ou menos caótica, com muita gente ainda a tentar almoçar. De qualquer forma, ainda consegui apanhar a parte final de RaspberryPi: Past, Present and Future, por Rob Bishop.

Entre conhecer pessoas e discutir projectos com vários grupos, não podia perder Bits to business, how to sell your software, de Brian Suda, que, como é habitual, ofereceu uma talk fascinante, dinâmica e bem humorada sobre criação (e manutenção) de empresas tecnológicas, com temas tão díspares como o controle do tempo de trabalho útil e quando gastar dinheiro da empresa (antes de pagar os impostos, como qualquer contabilista saberá).

Ao final da tarde dirigi-me ao workshop do RaspberryPi. Tenho o meu encomendado, mas era conveniente ter alguém que soubesse o que está a fazer por perto na primeira vez que lhe metesse as unhas. Correu razoavelmente bem, embora a linguagem usada no workshop (Python) não seja exactamente das minhas linguagens preferidas.

Já tinha tido a oportunidade de conversar com o Rob Bishop sobre alguns projectos que tenho em mente para esta plataforma, mas durante a noite ainda os discuti também com Filipe Valpereiro, da InMotion, que, aliás, é quem os está a vender cá. As perspectivas são boas, sobretudo depois do Filipe ter revelado que está a contar comercializar o resto do hardware necessário (touch screens para ligar o Pi).

Indie Game – The MovieAo final da noite, foi projectado o documentário Indie Game – The Movie (vencedor do festival Sundance), que segue o antes, durante e depois de três jogos indie e dos seus developers. Não é um documento técnico, mas extremamente humano, com o enfoque na motivação das pessoas que o fazem, como os seus jogos reflectem as suas falhas e aspirações. Eu recomendo vivamente que comprem este filme – custa apenas $9,99 e está disponível na Amazon, Steam e iTunes por download (sem DRM) ou stream.

Durante as primeiras horas da madrugada cirandei por aí, a conversar sobre os projectos de vários grupos, fui atacado com nerf e fui finalmente arrochar umas horas.

O Codebits segue dentro de momentos.

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Avisos:

  • As imagens constantes deste post não estão abrangidas pela licença Creative Commons 2.5 Portugal BY-NC-SA, revertendo, por isso, à licença por defeito em Portugal, que é de todos os direitos reservados. Esta opção é para evitar que estas imagens se transformem em futebol político, por improvável que isso seja;
  • Tirar fotografias a uma manifestação não é a mesma coisa do que participar na manifestação. Por princípio, sou contra manifestações: são a forma mais fraca de pressionar Governos, tendo, como tal, escassíssimos efeitos práticos, e normalmente acabam mal (à hora que escrevo isto, ainda há arremesso de objectos aos agentes da autoridade em frente ao Parlamento). Além disso, recuso-me terminantemente a ser instrumentalizado pela extrema-esquerda que, infelizmente, é normalmente quem aparece a "botar faladura";
  • A Praço do Município, em Vila Real, ficou muito mais composta do que o que aparece nas fotografias. Tive compromissos familiares que coincidiram com o grosso da manifestação, e não estava disponível para tirar fotografias. As fotografias representam apenas o início e o final. Pude, no entanto, continuar a observar de longe a praça e os manifestantes. Os primeiros números avançados eram de 1500 manifestantes e creio que esse número estará razoavelmente correcto.

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LikeFriendsPronto, mais um projecto lançado, mais um making of para podermos partir para outra. Não vou voltar a passar pelas coisas do costume (sim, voltei a usar a Yii, voltei a usar SASS e Compass) e também não vou voltar a falar do jogo do galo, nem da racionalização matemática por trás do LikeFriends.

Vamos lá.

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